Foi o que fiz e faço desde os 16 anos de idade, não obstante eu tinha tentado antes mas minha imaturidade não me permitia a compreensão do texto. Mesmo lendo St Exupery, que me parecia ser uma leitura infantil e que li quando era garoto, só fui compreender sua mensagem quando li aos 18 anos.
Há 4 anos, resolvi ler uma obra que na verdade já desejava ler a muito tempo. Era "Ensaios" de Michel de Montaigne, publicado em uma edição espetacular em 2007 pela editora Imf. Comprei os 3 livros, o último li no começo de 2008.
Michel foi um aristocrata francês muito culto, que foi prefeito de Montaigne no século XVI e que um belo dia decidiu isolar-se em sua casa e escrever a grande obra de sua vida (e realmente é). O livro é composto de pequenos textos (ensaios) que dissertam sobre tudo, da analogia de grandes povos e sociedades ao sentimento mais mesquinho e fútil do ser humano.
Mas hoje, quero falar de alguns dos temas que me lembrei neste livro. Do amor, do apego e do medo.
O amor existe por causa do medo, e o medo existe por causa do amor ou apego, e todas elas só existem devido a ignorância. Os estóicos costumavam dizer que aquele que conquistasse algo que desejasse muito, iria saborear a mais amarga decepção. Pois aquele que tem o que muito deseja, jamais aproveita plenamente o objeto de seu desejo, ou pelo medo de perdê-lo, ou pelo medo de depreciá-lo, mas sempre pelo medo da perda (trazida pelo apego).
Estes sentimentos possuem relação tão íntima entre si que na minha opinião é tão real quanto as 3 leis de Newton. E são tão reais, que todo o conhecimento ancião, dos sábios das muitas civilizações e sociedades que por aqui passaram, foi usado com maestria para moldar a sociedade de acordo com seus desejos.
Vê-se essa relação na composição da hierarquia social. Maquiavel costumava dizer que todo o Grande Rei precisa de um Grande Inimigo, justificando o apego do povo ao rei graças ao medo da insegurança e da tirania alheia, e assim muitos reis e líderes durante a história da humanidade, ou criaram e/ou alimentaram inimigos para justificar sua posição.
A Religião utiliza-se do medo mais natural de todo o ser que vive para justificar sua existência. Confortando os amedrontados com promessas de imortalidade que jamais podem ser provadas, ou demonstradas e conjecturas colocadas como provas cabais. E assim, desta forma, o "crédulo" se alimenta do medo, inclusive sob a pena da dor eterna.
A submissão da humilhação do trabalho, onde gastamos a maior parte do tempo de nossa vida útil, que jamais será ressarcido, ser mantém pelo medo da pobreza, medo da fome, medo da indigência, do medo de não sermos iguais aos outros, e ao mesmo tempo, nos torna gratos mesmo pelo pouco que temos.
Ainda no próprio livro de Montaigne, vê-se um capítulo onde ele disserta que durante o mercantilismo a literatura espanhola, holandesa e européia em geral descrevia os nativos das américas e da áfrica como indivíduos selvagens. Como povos sem cultura própria, com deuses pagãos e sociedades que não acreditavam em vida após a morte. E que graças a seus próprios costumes, os colocavam como pessoas agressivas, que atacavam sem motivo algum e depois devoravam suas vítimas, e assim os colonos e exploradores não sentiriam o menor remorso em matá-los, expropriá-los ou convertê-los. E tudo isso fazia com que o homem branco orgulha-se ainda mais de sua própria origem.
Hoje vemos esse mesmo cenário com o Mundo Árabe.
Mas a questão fundamental é que o ser humano só irá se libertar desses males que o atormentam no dia em que ele cessar suas vontades e paixões, pois são elas que alimentam seu medo, e somente então, ele saberá determinar por si próprio o que é realmente perigoso e benéfico para si mesmo.
Sds
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