Tenho 16 anos de experiência profissional, dos quais 8, somente no mercado corporativo. Sou analista de sistemas e comecei como programador aos 16 anos anos de idade ganhando R$ 54,00/mes (O salário mínimo de 1995). Comecei em escritório pequeno, tipo em um negócio de família ou de um homem só, de um judeu chamado Alexandre. Na época éramos ele, a noiva e eu, e desenvolvíamos softwares em Clipper para diversos fins. A última vez que tive notícia dele, em 2007, ouvi dizer que a empresa dele estava faturando 4 milhões mês e estava com uns 40 funcionários. Admito que ele merece: Trabalhava bem, era corajoso (contratou um moleque de 16 anos para ser o principal programador clipper) e sabia fazer negócio.
Não nego que se tivesse ficado, talvez eu teria mais sorte. Não sei ! Mas não me questiono ou lamento por isso. Hoje minha vasta experiência profissional se deve justamente ao fato de eu ter trabalhado em diversas empresas e ramos de negócio nesses 15 anos, e sempre desenvolvendo softwares. Mas se existe algo que as vezes penso "como poderia ter sido" é se tivesse investido em um negócio próprio. O que também não fico me arrependendo porque sei que eu não teria a experiência para atender o mercado corporativo (onde está o $$$), e que hoje só tenho porque estive os últimos 8 anos dentro dele e sei como funciona.
O que me leva a esses devaneios hipotéticos é justamente a posição que me encontro hoje como um funcionário(vulgo colaborador) do mercado corporativo.
Se você for uma pessoa que não sabe se escolhe entre funcionalismo e mercado corporativo, aqui vai minha opinião: Que bom seria se houvesse os grandes desafios do mercado corporativo e as remunerações e plano de carreira do funcionalismo. Acho que já defini a diferença clara entre ambos, e obviamente que em ambos os casos, há exceções.
Em primeiro, refiro-me, a uma empresa corporativa, qualquer empresa que tenha seu capital aberto, ou que seus acionistas sejam compostos por empresas de capital-aberto, que exatamente por isso, devem seguir certas metodologias, certificações e protocolos para que os acionistas tenham a maior visibilidade e controle da empresa possível mesmo não estando presente.
A tragédia que ocorre hoje no mercado corporativo é que justamente por serem empresas de capital aberto com ações disponíveis para qualquer investidor comprar, os fundamentos da empresa acabam que por se desvirtuarem totalmente. Os parâmetros passam a ser outros: em primeiro que os donos da empresa não são empresários que desejam ter uma base segura de onde tirarem suas rendas para sustento seu e de sua família, mas sim investidores, cujo o único objetivo é ter um retorno no menor tempo possível. Nestas circunstâncias, uma empresa não é dirigida para ser sólida mas sim rentável. A solidez passa a ser superficial e apenas suficiente.
Você, cidadão médio quando pensa em criar uma empresa sua, você não pensa como um investidor. Você imagina sua empresa, como são seus escritórios, como são seus clientes, você se projeta daqui há 20 anos, com uma grande rede, etc, etc.. Um investidor não.
Ele pensa diferente. Ele não quer saber como é o escritório. Ele não quer saber quem são os funcionários, ou mesmo os clientes. Ele apenas projeta o lucro dele daqui há alguns meses (e ele imagina isso visualizando um numero no monitor de computador). Para um investidor, quando o lucro diminui, isso significa prejuízo. Ou seja, o mesmo que você tem quando pensa em onde investir seu dinheiro.
No fim, o efeito em cadeia da hierarquia das ordens é inevitável, os parâmetros passam a ser em criar meios de garantir o compromisso em manter esses "papéis rentáveis" e não mais de garantir a existência a longo prazo da empresa. E assim, grandes empresas surgem da noite para o dia e são tratadas como ambulantes de praia em época de temporada. O importante é o Custo X Rendimento/Tempo. E quem se dispor a comprar por um bom preço, vende-se na hora. E se tiver que falir, fali.
Isso me faz lembrar meu penúltimo emprego, onde a empresa estava sendo vendida, e gente que estava lá há mais de 8 anos (alguns com 15 anos) e ocupavam cargos de confiança, foram mandados embora porque toda a hierarquia iria mudar. Penso eu quantas propostas essas pessoas haviam hesitado para investir suas carreiras na empresa e agora são deixadas com a gratidão inversamente proporcional que um dia ele concedeu.
Há 40 anos atrás. Um cidadão entrava office-boy em um Banco do Brasil, ou IBM, ou Bosch, ou Clark, e poderia aposentar diretor. Os cargos eram graduais, os funcionários subiam, conheciam todos os setores da empresa ( e o melhor: como era a vida pessoal de todos os subordinados e suas dificuldades), todos os processos, conhecia a empresa como se fosse dele. Hoje se você entra office-boy, você termina como office-boy sênior. Não há mobilidade, isso porque exatamente a empresa tem que obedecer as normas e certificações para poder negociar seus papéis na bolsa, e portanto devem ter seus cargos preenchidos por pessoas devidamente certificadas.
E quando se trata de cargo de comando, a coisa é ainda pior. Em alguns casos o nepotismo é descarado: ao primeiro lucro "ampliam" a empresa, criam cargos, chamam amigos de faculdade ou outro serviço pagando exorbitâncias, enquanto o peão que está lá há anos espera por uma chance de promoção. Isso tanto já aconteceu comigo que já me fez um dia dizer, quando um diretor falou que o governo era corrupto, que eles não podiam reclamar porque que eles faziam a mesma coisa, e se tivessem a chance, fariam pior.
Ou ainda, para se ter um cargo de comando, não é mais preciso conhecer bem a empresa e o negócio, ter bom relacionamento, ou se comunicar bem. Mas sim ser formado em alguma metodologia, ou ter pós na FGV, em gestão seja ela qual for, pois o importante é dar visibilidade e controle a seus superiores.
Quer uma tragédia ainda pior ? Cuidado se você for muito bom no que faz, pois o risco de você permanecer no seu cargo por tempo indeterminado é ainda maior. Um conhecido meu, de fumódromo de prédio, que trabalhava para uma multinacional de embalagens não foi promovido a diretor porque ele era o único que sabia fazer conversão de contas de balancete e balanço do Brasil para os EUA. Ou mesmo quando um gerente me disse, quando questionado do porquê uma vaga não estava sendo anunciada internamente, que não teria como fazer mobilidade porque não tinha ninguém para substituir-nos. Que tragédia ! Éramos capazes, estávamos lá há mais tempo, merecíamos essa promoção, mas por interesses da empresa, eles preferiram contratar gente nova, para ganhar mais do que nós. Foi neste momento que desisti dessa empresa e percebi que dedicar-me a ela era inútil. Um mês depois pedi demissão, depois de 4 anos.
Até hoje competência nunca me atrapalhou, mas também nunca me fez ganhar mais. Se me fez ganhar algo, foi apenas mais trabalho. Mesmo porque, ninguém reconhece meu trabalho até dia que me contratarem, já que nem sequer existe certificação para o tipo de trabalho que faço, e portanto, a única coisa que me garante aumento é procurar outra proposta e pedir demissão. São raras as empresas que realmente oferecem planos de carreira, e as que oferecem, criam um monte de variações de níveis com pequenos aumentos para poder ir "fragmentando" a ascenção salarial do sujeito, mantê-lo motivado, para só ir ganhar bem depois de 6 anos de empresa.
Os métodos admissionais são mais humilhantes ainda: dinâmicas de grupo, testes de Warteg, Grafologias, invasão de privacidade (orkut), e agora ouvi dizer que querem até cadeia para quem mentir no curriculum ou entrevista (só queria saber se a empresa será também punida quando mente com relação aos benefícios ou crescimento do funcionário na empresa). Pedem-nos referências, ficha criminal, etc.. Tratam-nos como um produto especificado e dentro das normas padrão como se fôssemos recém-fabricados. Mas nem sequer nos dão uma referência de um ex-funcionário, ou nos mostram seu balancete ou quantos processos trabalhistas tem nas costas.
Aqueles que são seduzidos por este mundo pagam caro. São atraídos pela aparente estabilidade, a alta liquidez de rendimentos (pois os salários são mais altos porém os benefícios menores) e a falsa perspectiva de ascenção e quando conseguem o primeiro bom cargo se atolam em compromissos. Casam, fazem financiamento de carros, automóveis, ou então simplesmente adequam sua vida ao padrão de vida que seu salário pode proporcionar e quando menos percebem estão totalmente dependentes de seu emprego e se vêem obrigados a suportar todo o tipo de humilhação e abuso, como até mesmo o pior deles, que é trabalhar de graça (não cobrar por hora extra). Com todos esses compromissos são menores as chances de arriscar novas oportunidades, são mais motivos para recusar um emprego melhor em outro lugar. Mas enfim, são trocas.
Para sobreviver neste mundo cão, tenho meus meios. E reconheço que por ser solteiro, isso é totalmente possível no meu caso. O primeiro deles é gastar no máximo 2/3 do que ganho e guardar o resto. Na pior das possibilidades, tenho que trabalhar 2 meses para viver 1, e isso irá me garantir a "independência" em caso de um possível abuso ou embate. Segundo, não faço financiamento(e evito querer coisas que precisem serem financiadas). Terceiro, visto a minha camisa, não a da empresa. Faço o MEU trabalho divinamente e tento aparecer o máximo possível para sair de portas abertas. Quarto, se você trabalha com projetos como eu, se dê ao luxo de permanecer no máximo 2 anos em uma empresa, isso não irá entediá-lo (pois toda a empresa entedia e é nesse momento que começamos a ficar "reclamões") , e você estará com o conhecimento sempre renovado (lembre-se que nunca sabemos tudo).
Mas é isso.
Essa é a tragédia do mercado corporativo. É esse tipo de vida, que desde a infância, as cartilhas escolares, as telenovelas, os filmes, as "revistas especializadas", e todo o tipo de "poder" nos pregam como independência, autonomia e liberdade, mas não passa de uma nova forma de escravidão consensual.
Sds.