quinta-feira, 6 de junho de 2013

Elevando a Discussão do Aborto



            É certo que o tema que pretendo abordar no presente documento, é erroneamente apresentado como um mero tabu social, cuja as instituições que a pregam, tentam a todo custo atribuir toda e qualquer restrição ética como desejos somente aplicados aos desígnios da crença religiosa. Contudo, o que intento expor aqui, é justamente o inverso: pretendo problematizar valores positivos de ordem científica tidos há muito como verossímeis e incontestáveis, mas que na verdade somente os são pela ignorância de outros elementos científicos e pelo simples relativismo moral trazido por uma visão existencial singular e egocêntrica.
            Inicialmente, o público alvo deste documento incluem os legisladores e os profissionais da área de saúde que são contra legalização de leis de aborto. Porém, o verdadeiro público que pretendo atingir são justamente àqueles que são pró a legalização do mesmo. A verdadeira intenção aqui, será a de elevar e dar complexidade a um tema, que como já dito, teve de certa forma todos os argumentos minimizados por uma visão niilista e pragmática, sobretudo no que tange o escopo de um indivíduo, ou melhor, do que é realmente um indivíduo.
            É certo também, que sabemos sobre a existência de correntes ideológicas de ordem política, que tentam insistentemente subverter o formato de nossa organização social de uma sociedade moral para uma sociedade científica. E que para tanto, estes mesmos grupos se valem dos argumentos cientificistas para que seja imposto um novo conceito de responsabilidade moral, através do relativismo ético da vida por ideais utilitaristas que transformam um indivíduo em uma mera coisa passível de valoração simplesmente baseada na utilidade e inutilidade. No entanto, preferirei deixar estes argumentos às diversas oposições ideológicas já existentes e que combatem ferozmente estes grupos.
            E assim me atendo ao escopo do objeto do tema dissociado destes elementos de interesses políticos, me valerei de argumentos já existentes, de pelo menos um século, do campo da bioética e da filosofia. Argumentos estes, que foram omitidos pelas classes científicas e políticas que compõem este grupo de interesse do campo positivista. Argumentos que levam a questionamentos que são até hoje, verdadeiras incógnitas no campo científico, onde jamais puderam serem explicados e totalmente esclarecidos, e que inexoravelmente, precisam serem expostos a toda a comunidade médica, magistral e popular.
            Já há algum tempo, os grupos de interesse pró abortistas tentam por meio de um discurso radical, convencer a sociedade da existência de uma polarização ideológica, fazendo incutir na mente da população de que toda e qualquer oposição pro abortista, provem tão somente do discurso religioso, e que na atualidade se confirma, mas que na prática, sobretudo no incide sobre o conhecimento científico bioético, tal oposição solitária não consta como sendo uma verdade.  O que se vê de fato, é a exploração da ignorância científica e intelectual da população com relação ao tema, para poderem disseminarem justificativas racionalistas, e razões utilitaristas, baseado tão somente no pouco conhecimento científico que é exposto para a sociedade.
            A finalidade portanto, não é de trazer ao leitor qualquer tipo de certeza de um discurso retórico. Muito pelo contrário: tenho o intuito de elevar o debate por meio de um discurso dialógico, expondo a luz da mente do leitor uma série de dúvidas e incógnitas acerca do tema, removendo todo o tipo de convicção positivista que há tempos tenta minimizar o debate acerca do aborto e de suas implicações morais e éticas.

O INDIVÍDUO

            Há tempos os grupos de interesse pró abortistas tentam de um modo fortuito, monopolizar o tema central do debate ético do aborto, sobretudo no que tange o escopo do indivíduo. E para tanto, os mesmos tentam de todas as maneiras suprimir todo e qualquer conceito metafísico das definições ontológicas e científicas que compõem os limites do indivíduo, se valendo de métodos do discurso positivista e relativista.
            Até o momento, a principal ferramenta de argumentação destes grupos como tentativa desta relativização moral e ética, está na minimização de todas as definições ontológicas do indivíduo, centralizando todo este discurso explanativo em torno de um único fator orgânico: o cérebro e de seu sistema nervoso.
            Para estes grupos, a individualidade, e assim portanto, todos os direitos do mesmo como um indivíduo só tem seu início quando o mesmo, passa a desenvolver seu cérebro e por sua vez todo o sistema nervoso que se ramifica. Em tese, o indivíduo enquanto zigoto e embrião não possui valores individuais de nenhuma ordem, assim como também não goza de nenhum direito legal que lhe cabe como indivíduo.
            Eles estabelecem que o feto até a décima segunda semana de vida, por não ter seu sistema nervoso ainda desenvolvido nos estágios iniciais, não goza de uma identidade humana, e assim portanto, não possui nenhum tipo de consciência ou auto-identidade, inclusive ignorando completamente o fato de que não existe nenhum estudo conclusivo de que,  se sendo este estágio, um estágio inicial e natural para o desenvolvimento de todo e qualquer ser, o mesmo não influencia de forma direta ou indireta o desenvolvimento final de toda a consciência que está porvir no indivíduo em sua fase "final" de desenvolvimento.
            Em resumo: na visão relativista de tais grupos, este indivíduo enquanto ainda se desenvolve nesta fase, não passa de um amontoado de células que não possui nenhum valor ontológico enquanto ser vivente.
            Contudo, é exatamente aí que se estabelece um paradigma, que já há mais de um século, foi levantado por Henri Bergson (filósofo dos campos da bioética, neuropsicologia, das teorias evolucionistas, da literatura e inclusive do cinema), e outros filósofos evolucionistas e espiritualistas: que são os paradigmas sobre onde começam e onde terminam os limites de tudo aquilo que conceituam um organismo como ser individual.
            Tentarei aqui descrever, de forma sucinta, alguns dos paradigmas bioéticos que circundavam a cabeça destes filósofos com relação a todas as ideias que dizem respeito à individualidade.

O Tempo e Duração da Individualidade

            Teóricos dos campos da biologia evolucionista, da cosmologia e da física tem seu próprio modo particular de enxergar os conceitos físicos de tempo e espaço no mundo concreto e perceptível, onde todos os modelos de compreensão destas grandezas ainda se desenvolvem em seu campo científico, sobretudo matemático. Contudo é importante salientar que poucos deles dedicam-se a refletir sobre a principal razão de fazermos dele uma grandeza: a racionalidade. Sobretudo porque a natureza da racionalidade humana é composta através das leis de causalidade, que por sua vez são construídas através dos sentidos, e os sentidos só conseguem perceber tudo aquilo que é material, o que é sólido e passível de um fenômeno observável.
            É de extrema importância termos em mente que a cognição humana, e talvez por que não dizer que a de todos os seres (mesmo que em naturezas e graus diferentes) para que sejam de algum modo exercidos, os mesmos precisam estar debaixo dos ditames do tempo. Pois filosoficamente, dialogicamente e dianoeticamente falando, inevitavelmente toda a ação que se desdobra em uma reação, toda a reatividade, toda a maneira lógica de pensar e sentir, inexoravelmente estão condicionados a ideias de eventos e fenômenos predecessores que por sua vez geram eventos e fenômenos sucessores, ou seja, toda nossa razão cognitiva de existência está montada em cima do princípio da causalidade.
O universo já está definido; sempre esteve: seja desde o momento em que repousava a suposta pequena “bola de golfe” que concentrou toda a energia que compõe a matéria existente no universo momentos antes da grande explosão; ou então seja o universo da forma que é como sempre foi e será, sem início e sem fim.
Não é possível nem mesmo formularmos um único pensamento sequer, sem que haja um porvir e um devir; sem haver uma ordem que seja, que por sua vez se desdobra em regra, e por fim conhecimento. E assim portanto, pelo próprio conceito, para existirmos como seres conscientes que somos exige-se por parte de nosso cérebro uma noção de tempo e espaço.
Porém não devemos nos precipitar. Todo nosso pensamento e razão, que se manifestam de maneira puramente lógicas, e por sua vez, passíveis de ordens predecessoras e sucessoras, jamais poderão enxergar a verdadeira natureza das manifestações do universo em seu significado mais verdadeiro. De uma maneira ou de outra, se não tivéssemos em nossas mentes a noção de tempo e espaço, seríamos uma mera parte do todo; raciocinaríamos e agiríamos como um efeito que absorve em si sua causa.
Para o próprio universo, o tempo não possui o mesmo significado que possui para nós humanos, e mesmo seres viventes. Em toda sua estrita materialidade, onde nada se cria e tudo se transforma, tudo como sendo potência em ato, o passado, presente e futuro nada mais são do que variações de estados causados por estes atos. Para o matemático Max Planck, o tempo nada mais representava do que o retrato de um momentum, nada mais do que uma das infinitas divisões de um todo já definido. Nós apenas navegamos no meio destes estados apenas por um infinitesimal período. O próprio matemático conceitua que se pudesse ter todas as regras de composição, todas as posições, todas as medidas de grandezas de toda a matéria distribuída no universo, e tempo para calculá-las, todo o futuro seria previsível. E tenho certeza que mesmo o cético cientificista mais cabal, jamais iria negar tais certezas.
A única diferença dos materialistas ateus para nós seguidores Deus, está na forma de interpretarmos tais certezas. Da mesma forma que o tempo para o universo não possui o mesmo significado que tem para nós, porque também teria algum significado para o Criador da obra? Deus é o que é: “Eu sou o que sou”, Yud-he-vav-he, o Verbo, o Logos. O fato de acreditarmos que Deus nos deu a nossa missão, e que em contrapartida sabiamente nos tirou toda a onisciência de todas as respectivas sucessões de estados, nos possibilitando dar um significado para o tempo, já nos define como indivíduos passíveis de livre-arbítrio.
E sendo Deus, o Criador, o conhecedor de todas as regras estritas da materialidade e dos fenômenos do universo, de todas as ações e efeitos, do início até o fim dos tempos, como negar então que ele é o conhecedor de todas as coisas?
E mesmo, para os materialistas, trocando Deus pelo simples Universo material, ao qual todos integramos pelas vias da matéria, de suas moléculas, de suas partículas, de suas partículas fundamentais (quarks, leptons e mesons), onde nelas mesmas se vêem um conhecimento próprio embutido ou imanente, que se desdobram nos seus próprios fenômenos.
E ainda, sendo para os materialistas, todos os fenômenos e reações do universo e da vida nada mais que uma cadeia infinita de causas e consequências totalmente explicáveis  pelas leis matemáticas e físicas, e que assim poderiam serem previsíveis pelas vias do cálculo (bastando apenas o conhecimento de todas as variáveis e estados), que seguem ordens sucessivas, vendo a eles mesmos como simples indivíduos reativos em seus estados de humores que se desdobram em emoções (que por sua vez se dão por suas necessidades fisiológicas resultantes dos efeitos da matéria e dos humores de outros indivíduos sujeitos às mesmas resultantes) em meio a toda esta cadeia, que motivos teriam eles para acreditar que o tempo, ou a idade, possui algum valor intrínseco para a composição da individualidade de alguém ?
O tempo e a duração, nada mais representam do que entidades perceptivas de estados para nossos sentidos. Precisamos pensar sobre o tempo, porque pensamos de forma dialética, causalista e lógica, porque sentimos o mundo de forma material, mesmo sabendo cientificamente que tudo não passa de puras formas de energias e de espaço vazio. Tempo e duração, são grandezas que apenas integram nossa existência perceptível enquanto organismos, e que por sua vez, só somos capaz de conceituar o mesmo quando possuir um cérebro que trabalha debaixo dessas leis.
Os próprios filósofos evolucionistas afirmam que a inteligência é apenas um efeito local da evolução, então porque conceituar um indivíduo como tal, somente depois que ele adquiri um cérebro para tal fim? E ainda, me valendo da própria premissa citada, por que tenho que aceitar o fato de quem um indivíduo só o é, se o mesmo tiver tal órgão inteligível?

A Individualidade Orgânica

            Mesmo para os teóricos da biologia evolucionista, os verdadeiros conceitos que definem o “ser vivo” como indivíduo em seu todo ainda são incognoscíveis.  Diante de todo o conhecimento já acumulado no campo das ciências biológicas, um mistério ainda acerca a mente de todos eles: onde começa e onde termina a individualidade? Será que um ser vivo, enquanto indivíduo trata-se de um organismo formado por um conjunto de células, ou um conjunto de células que formam um organismo ?
            Para podermos compreender melhor tal conceito, precisamos olhar para nossa própria biodiversidade terrena, onde encontramos os tipos de seres denominados como superorganismos. Entre eles estão a espécies como as Anthophilas (onde integram as abelhas) e as espécies das Formicidae (as Formigas). A principal características destas espécies, está no fato de que estes formam colônias. E que embora tal grupo, quando formado, compõem-se por uma pequena, ou grande, porção de insetos individuais mas que agem no grupo, de forma individual ou cooperativa, para formar um todo que parece se comportar inteligivelmente como um ser individual. Trata-se de uma similaridade a um organismo vivo individual, onde o todo é muito mais do que a soma das partes.
            Tal dilema biológico nada mais é do que uma evolução do pensamento que precede os pensadores e cientistas modernos desde os tempos de Aristóteles, onde toda a materialidade do universo é composto de “Potência em Ato”. Ou seja, toda a potência é aquilo que tem a capacidade de se tornar outra coisa, enquanto tende a possuir uma qualidade é potência; e enquanto essa qualidade já existe, ela é em ato. Assim sendo, independente do agente provedor dessa mudança, um zigoto existente, enquanto ato, tem a potência de se tornar um indivíduo completo. Essa capacidade de todas as coisas de receber uma qualidade se traduz no indivíduo orgânico singular em sua capacidade de receber uma qualidade de indivíduo completo.  Mesmo, toda a fase de desenvolvimento do indivíduo, desde zigoto, embrião, feto e recém-nascido, nada mais são do que sucessivas atualizações(e é exatamente do que estamos falando que provém a etimologia desta palavra) destas potências em atos.  E assim portanto, todas as coisas que existem mesmo em ato, são automaticamente potência, já que tudo no universo é passível de uma transformação. 
O que tal ideia nos remete aqui, é o mesmo dilema que perturbou Bergson ao questionar o superorganismo tanto como organismo formado por um conjunto de células, como um conjunto de células que formam um organismo: é que essa capacidade de “movimento”, ou a Potência em Ato, é uma propriedade ontológica de todo o indivíduo orgânico. Já que a partir da noção de que esse movimento é uma regra imanente de toda a composição de nosso universo físico, a potência em ato constitui um “direito ontológico”. Portanto, basta um breve momento de reflexão para percebermos que ao se agir contra um indivíduo enquanto única célula, está se agindo no indivíduo em seu todo, a partir do momento em que se viola diretamente este direito inato de todo o indivíduo.

A consciência do Indivíduo

            Quando a ciência busca dar fundamento e a conceituar algo, todo o conhecimento científico dá como aceito e justificável somente aquilo que é explicado e demonstrado pelo método científico. São as relações de causalidade, que por sua vez são idealizadas sob as formas materiais que fundamentam qualquer teoria.
            Na tentativa dos grupos científicos pró-abortistas idealizarem os conceitos de consciência, eles parecem apenas aceitar como aquilo que é consciente, toda a forma vivente que se apresenta debaixo de seu próprio modelo de consciência, e por sua vez inteligência. Já que é com nossa inteligência, e através de nossa inteligência que olhamos as outras formas de consciência. Poderíamos até termos tais premissas como aceitáveis caso fôssemos entidades de pura inteligência. Fato que não se constata, já que temos a ciência de que essa inteligência é exercida dentro de um complexo emaranhado orgânico que, pelo menos fisicamente, compreende todas as características primeiras de uma forma orgânica dentre as mais primitivas e individuais da vida na terra, que são as células.
            Ali nestas microscópicas células, mesmo em um indivíduo de estágio embrionário que contempla desde um pequeno grupo de células existentes no presente momento, como também toda a informação genética das células que ainda estão por vir, pode estar contido toda uma forma de consciência de natureza ainda primitiva e totalmente incognoscível à compreensão humana; uma forma de vida que é desprovida de meios sensoriais e inteligíveis, ao nosso modo de inteligência, para perceber o mundo externo da maneira que percebemos com nossos sentidos e capacidades analíticas mais complexas, mas que inegavelmente devem possuir instrumentos imanentes da sua própria forma para poder determinar e interagir com fenômenos externos adequados, mesmo que ainda, à sua forma de existência.  Ali, sobretudo, residem todas as informações primárias que determinarão todas as potências que irão se conjuntar para formar o sistema nervoso central e assim determinar o ser humano completo que conhecemos.
            Aristóteles já concluía que o ser humano é composto de alma e corpo, e devemos subentender aqui, que a alma se refere a mente, a inteligência, ou a consciência, embora ele mesmo atribua a essa “alma” a própria eternidade como fazemos em nossa crença judaico-cristã. Essa alma que é, segundo o filósofo, a força que anima o corpo consistia de duas potências, a primeira é a alma subentendida segundo suas próprias características, e em um outro sentido, está a alma entendida em relação ao corpo, e assim portanto, embora Aristóteles tenha buscado fundamentar a anima que explica a alma, o que nos interessa aqui, é a busca de Aristóteles de descobrir quais são as potências da alma com relação ao corpo (investigação que fundamentará toda ética aristotélica). Essa investigação começa por tentar descobrir quais são as potências da alma que pertencem ao caráter humano.
            Neste sentido, dirá Aristóteles, e respaldará o filósofo neuropsiquiatria Bergson, que a alma (ou inteligência na visão de Bergson), possui três potências: as potências vegetativas, as potências sensitivas e as potências intelectivas. Vamos nos ater neste primeiro momento às potências vegetativas, que nos parecem serem as mais importantes de todas para o tema, que são as potências que nos aproximam, enquanto seres biológicos, aos organismos constituídos por logus (um conhecimento imanente) que nos aproximam dos seres primários da natureza, como as plantas. São as potências que correspondem a todas as necessidades essenciais para a manutenção de nossa espécie biológica, como a nutrição e a saúde e outras necessidades de bem estar que permitem o crescimento e perpetuação das capacidades fisiológicas do ser, cujas estas, inevitavelmente interferem em nossa forma de pensar, e portanto, interagir com o meio, ao passo que nos intuem os sentimentos da ordem dos desejos e satisfações, que inevitavelmente interferem em nossa forma de pensar e raciocinar o mundo.  É possível notar aqui uma característica sutil que aproxima tais ideias das bases do Darwinismo em sua obra “D’Origem das Espécies”, que para quem leu realmente a obra, percebe em Darwin um caráter bem mais integralista, com uma ênfase em variabilidade, do conceito separatista com ênfase na derivação matricial, como tenta imputar o positivismo pós-moderno.
            É importante considerarmos aqui que, mesmo sendo um organismo de composição orgânica de células bem menos heterogêneas, se comparadas com a dos organismos dos seres vertebrados e mesmo da categoria dos insetos, a inteligência vegetal não é nula, mas sim apenas de uma natureza “diferente”. Elas interagem com o ambiente, de acordo com suas limitações fisiológicas, da mesma forma que interagimos com o ambiente com as nossas próprias limitações: também possuem uma potência em ato e também são regidas por princípios causalistas. Embora apresentem uma aparente imobilidade, através de seu crescimento lento e gradual, rearranjam suas folhas e galhos para obter melhor luminosidade, fundam suas raízes para obter maior sustentação e hidratação, produzem sementes que se valem de outros seres e fenômenos naturais (como o vento) para locomoverem as mesmas, apresentando um certo logus individual para àqueles que sabem reconhecer, mas sobretudo e o mais importante: elas respondem a estímulos emocionais da mesma forma que nós humanos, com nossa forma de consciência “inteligente” dotada de cérebro e órgãos sensoriais responde. E isso já foi, tanto comprovado pela ciência, como por um bom jardineiro que conversa com suas plantas.
            Dessa maneira, fatalmente uma pergunta nos remete a mente: se mesmo um organismo vegetal, que pode ser classificado qualitativamente pela biologia como uma forma tão primitiva quanto é um embrião em seu estágio inicial (composto também de poucas células homogêneas e amorfas), responde a estímulos emocionais, denotando assim uma espécie de consciência interativa, o que faz os positivistas pós-modernos acreditarem que o mesmo não ocorre com aquele pequenino embrião?
E é exatamente neste aspecto sensitivo que se adequam as potências sensitivas aristotélicas, que são as potências da alma responsáveis pelos elementos de cognição que são sensíveis à realidade. Na prática, todos os seres vivos são dotados de uma certa potência sensitiva, os seres mais primitivos o fazem pela variabilidade do PH em sua membrana citoplasmática, ou por elementos químicos fotossensíveis em seu citoplasma, ou por correspondências químicas do meio, mas todos eles, de uma maneira ou de outra, as possuem. E são pelas potências sensitivas, que no caso dos indivíduos humanos completamente formados, através de seus órgãos sensoriais, que classificamos com os sentidos, identificamos primariamente os elementos da realidade, mas que em um primeiro momento, as tivemos e ainda temos, também, em suas formas mais singulares. Segundo Aristóteles e inclusive a própria ciência, para os seres humanos (formados e completos) esta potência ainda não constitui uma compreensão intelectual da realidade, mas tão somente uma compreensão sensível e reativa. E assim, pode-se concluir que essa potência se apresenta como uma sombra que se projeta, ou como uma variável aritmética, que alimenta nossa capacidade cognitiva para que nossa inteligência, através das capacidades emulativas possam administrar tais informações e atingir um objetivo maior que virá na terceira potência (a potência intelectiva).
            A ciência ainda não poderá jamais afirmar que naquele estágio ainda primitivo exista alguma forma de consciência primeira que contribua, ou que seja a causa para a forma de consciência posterior que está para vir. Contudo, esta mesma ciência também não possui ainda, todas as comprovações necessárias para negá-la.
Na ótica do universo, o indivíduo é o que só poderia ser. Ele não faz distinção do que ele é, desde o momento da fusão do espermatozoide com o óvulo até a completa dissolução de todas as moléculas de seu corpo material após sua morte orgânica. Ele apenas é, mesmo que por um infinitesimal momento de toda essa existência universal.  Como dito, o ser humano não é pura inteligência, ele é antes de tudo organismo, corpo, que se inicia lá naquele estágio primordial. Somos consequência daquele estágio, e não causa. Somos o resultado de toda a potencialidade guardada naquele estágio ainda primitivo e restrito.
            Para este indivíduo, a forma de sua consciência e de seu conhecimento é inseparável de sua forma orgânica. Mesmo porque ambos coexistem e a primeira habita na segunda. Uma análise da consciência e da individualidade que não acompanha uma teoria da vida dissolve todo o sentido da mesma: nos força a aceitar tais e quais conceitos que o entendimento põe à sua disposição, não pode fazer mais do que encerrar os fatos em preceitos científicos limitados, que por sua vez, considera como definitivos. É a total relativização da moral, da vida, do indivíduo e do espírito. Tudo isso nada mais é do que uma definição cômoda necessária a ciência positiva que não representa em sua totalidade uma verdadeira análise sobre seu objeto.


domingo, 24 de março de 2013

Da Percepção


 
            Aldous Huxley, em sua obra “Portas da Percepção”, que na verdade é um relato de suas auto-observações quando esteve, ele mesmo, sob efeito de mescalina, discorre de forma interessante com relação a percepção. Ele diz que nosso cérebro, em seu estado normal, funciona como um filtro que tende a selecionar como perceptível somente aquilo que lhe é essencial e necessário a vida, enquanto que aquilo que é supérfluo é desprezado ou despercebido. Ele afirma que se nosso cérebro pudesse perceber todos os fenômenos que ocorrem ao seu redor o ser humano enlouqueceria com a quantidade de informação e eventos que teria que lidar.
            Certa vez, há mais de quinze anos, em um livro budista li sobre uma experiência onde deram a um homem um óculos cuja as lentes distorciam toda a visão de forma assimétrica( quero dizer, diferente da forma que uma lente corretiva distorce a visão quando o míope ou hipermétrope os põe pela primeira vez, que possuem distorções, côncavas ou convexas, porém simétricas), dando formas bem distorcidas dos contornos e vultos que se transpareciam pela lente, e este homem teria que usar este óculos indefinidamente sem o tirar. Ocorre que nos 3 primeiros dias o homem não conseguia definir um objeto a um metro de distância, sentia enjôos e tonturas, mas conforme os dias se passavam o homem começou a adaptar-se as lentes e seu cérebro corrigiu todas as distorções fazendo-o enxergar as coisas como eram de fato. Porém o que devemos concluir com isso?  Se trata de uma adaptação do cérebro. Mas quais os parâmetros que o cérebro utilizou para corrigir essa visão distorcida? Será que o conhecimento prévio das coisas como eram, ou seja, como que uma reta, ou uma curva, ou um canto, ou uma profundidade, e de como se manifestam na retina dos olhos, ou o cérebro com algum tipo de percepção extra-sensorial consegue estimar o que há além do sentido da visão para corrigi-la? Sem dúvida o mais sensato seria aceitarmos a primeira proposição, o que nos remete a uma afirmação inexorável: a de que de uma forma ou de outra o ser humano enxerga aquilo que ele quer ver.
            A percepção, de toda e qualquer natureza, seja pela visão, audição, paladar, olfato e tato, são os sensores humanos que delineiam a realidade com a qual o raciocínio irá trabalhar. São estas faculdades que definem ao humano os limites de seu universo de existência e como reproduzi-los em sua mente. Enquanto uma cor se manifesta na mente pelo sentido da visão, a temperatura se manifesta pelo sentido do tato, porém em aspectos físicos, ambos se manifestam no espaço por ondas. Todas estas capacidades sensoriais humanas trabalham em conjunto com o raciocínio, como delimitadores do pensamento e da conclusão.
            Toda essa complexa rede de órgãos sensoriais que compõem a  percepção estão tão intrinsecamente ligados a noção cognitiva de realidade como que a forma do objeto está para a geometria. Imagine tentar descrever a um cego de nascença o que viria a ser a cor verde. Embora poderíamos descrever algumas características da cor, como a forma de sua onda, como uma analogia para o entendimento, jamais poderíamos descrever de fato o que é realmente enxergar a cor verde.
            De forma mais simplista ainda, porém não menos verdadeira, eu diria que os sentidos da percepção são para o raciocínio o que as cartas de baralho são para um jogador: apenas um conjunto de números que o jogador dispõe em mãos, e que de acordo com as regras do jogo ele as deve usar como melhor lhe aprouver.  E o que são os sentidos senão órgãos que trazem à consciência ordens qualitativas e quantitativas de estímulos nervosos causados por fenômenos externos, que agrupados e relacionados em conjunto, compõem uma espécie de simulacro que permite prever um evento externo, para que de acordo com o que nos for mais útil, poder decidir que ações tomar na realidade ?
            Oras! Poderíamos avançar mais adiante ainda. Pergunto ao leitor qual lembrança que há em sua memória, ou pensamento que se tenha formado, cuja origem não tenha sido submetida pelo crivo dos sentidos? Não seria exagero algum afirmar que todas as lembranças de um humano adulto nada mais são que tudo aquilo que ele viu, ouviu, cheirou, experimentou e tocou? E que mesmo a emoção está diretamente relacionada com estes sentidos? E conseqüentemente, o que formou o caráter desses homens nada mais foram do que a compreensão, a reflexão, a comparação, a justaposição de todas essas lembranças.  Rene de Descartes foi sábio ao afirmar que todos os homens pensam da mesma forma, o que os difere fundamentalmente entre si é a forma que cada um enxergou o mundo. E claro que o termo enxergar, no caso, se estende mera visão.
            Devido as limitações as quais a percepção humana está condicionada, sua inclinação é de ordem reativa,  e se conduz somente pelo caráter empírico. É sentido por ninguém mais além do agente perceptor. Quando a percepção de um perigo é iminente, o instinto e os dispositivos de auto-preservação entram em ação, como quando mordemos algo muito duro e a dor em nossos dentes faz a mandíbula abrir imediatamente. Porém quando os estímulos de uma determinada percepção são suportáveis, e assim observáveis, utilizamo-nos das informações dadas pelos nossos órgãos sensoriais para voluntariamente tomarmos a ação que melhor convém.
            Ora. Nada mais lógico afirmar que quanto menos raciocínio um ser vivo usa, e conseqüentemente depende dele, mais apurados(e precisos) serão seus órgãos sensoriais. Com base em essa simples ciência da relação de percepção e raciocínio, concluímos que complexidade de um órgão sensorial passa a ser um fator atenuante ou agravante da classificação de comportamento instintivo. Certamente que quanto mais intenso um estímulo se manifestar nos meios cognitivos de um ser, mais prazerosos ou insuportáveis serão esses estímulos para este ser, e assim seu centro nervoso, com uma aguçada percepção e distinção entre o que parece ser bom e o que parece ser ruim, não irá ter dificuldades para decidir quais ações ou atitudes adotar em determinada circunstância.
             A maioria dos animais selvagens vertebrados se utilizam de um  olfato extremamente aguçado para os auxiliarem a rastrearem uma caça,  a detectarem uma ameaça, ou inspecionarem um alimento que irão comer ou a água que irão beber. Dotados de poderosos instrumentos sensoriais que permitem detectar partículas de até partes entre milhões, quem iria precisar do conhecimento ou do raciocínio para tomar uma ação se tem em aos o melhor dos medidores ? Enquanto nós ao olharmos um pedaço qualquer de comida na natureza teríamos que usar de preposições do conhecimento, como determinar a quanto tempo que esta comida está lá,  se esteve exposta a calor ou frio, se está com uma cor boa ou não; para o animal de olfato aguçado bastaria uma simples farejada para poder determinar o estado do alimento e o cheiro da podridão em seu estado inicial já seria o suficiente para tornar o gosto do alimento impróprio, pois a intensidade desses estímulos e a percepção do centro nervoso(de prazeroso ou desagradável) seriam diretamente proporcionais a quantidade de células sensoriais do sentido.
            Não nos enganemos. Novamente sou enfático: a Natureza não ostenta. Ela não irá nos dar recursos sensoriais aguçados, que por sua vez consomem energia que o organismo em seu todo terá que suprir, para ter que depois colocar um centro nervoso de alta complexidade para apenas afirmar o que o órgão sensorial já constatou.
Assim sendo, nos humanos a natureza moderou a maioria de nossos órgãos sensoriais, deixando, ao que parece, apenas a visão como sendo o órgão sensorial mais complexo, principalmente quando comparada a grande maioria de outras espécies de animais. Não é de se estranhar que é justamente pela visão que o indivíduo é mais persuasivamente iludido.
Nota-se que o raciocínio, tanto humano quanto animal (mesmo que de natureza primária) é matemático. Ou seja, funciona como o princípio fundamental de uma operação básica ou mesmo uma equação: ele precisa de variáveis para poder operar, ou seja, as percepções dadas pelos respectivos órgãos sensoriais constituem a informação de entrada, ou as variáveis. Esse é o método inteligente do raciocínio, utiliza-se de informações de entrada. No entanto, como em uma equação de resultado 0, o raciocínio sempre trabalha de acordo com o que ele considera positivo e negativo, interessante ou desprezível. E com o objetivo de economizar recursos energéticos do organismo em um eventual re-processamento de informação ou com a re-experiência do evento, que pode ser oneroso ao organismo em termos energéticos ou mesmo de risco iminente à integridade física, o centro nervoso tem a capacidade de armazenar toda a informação de uma experiência com a finalidade de ser usada no futuro.
A capacidade de previsão humana advém justamente dessa capacidade de armazenarmos experiências, ou seja: memória. A memória, seja ela empírica ou didática(em todos os aspectos), com suas conclusões positivas ou negativas já formadas irão servir ao indivíduo como novas informações de entrada para outros novos raciocínios que ocorrem em seu cotidiano que auxiliam em sua ação voluntária. Como conseqüência à medida que mais velhos ficamos, mais experiências temos e mais sábios nos tornamos, ao menos com relação a essas experiências. E o aprendizado não empírico que embora também permita ao homem tomar uma decisão voluntária positiva ou negativa só é aceito e utilizado como premissa ou hipótese verdadeira quando ele é coerente com os limites de realidade determinada pelos sentidos, ou pela subjetividade, que veremos mais adiante.
Submetido obrigatoriamente a esta forma de raciocínio, o ser vivo se vê preso ao modelo de realidade estipulado pelos seus sentidos, e por isso nós humanos, por exemplo, ao teorizarmos eventos ou fenômenos que não podemos perceber, como o modelo de um átomo, ou uma força eletromagnética, o indivíduo pensante acaba inevitavelmente determinando, como algo passível de verdadeiro, apenas aquilo que seus sentidos aceitam como verdadeiro, e assim para entender o universo que o cerca, ele precisa estabelecer grandezas para mensurar esses mesmos atributos que ele necessita ter como verdadeiros em um objetivo classificado real. E assim a ciência só consegue explicar, e portanto aceitar, uma teoria quando ela possui grandezas mensuráveis que integram a realidade da percepção humana, como tempo, tamanho, peso, comprimento, estado material, categoria química, e principalmente, a convenção de forças opositoras.
A explanação da ciência sobre o fundamento de forças opositoras se tornou a pedra angular dos teóricos modernos. Ação e Reação, Conservação de Forças, solidez e espaço são nada mais que convenções que só são aceitas pela ciência porque são exatamente sob o véu dessas mesmas leis que nossos sentidos estão submetidos a operarem. Toda a ciência matemática, física ou química não explica a realidade tal como é, e sim nada mais faz, do que explicar a realidade tal como nosso cérebro a percebe. E quando nos colocamos a uma observação mais imparcial e livre destes “dogmas”, em universos quânticos e elementares por exemplo, vemos que nenhum dos 3 fundamentos Newtonianos se firmam. Vemos que a matéria em sua menor dimensão infinitesimal parece nem mesmo se manifestar como algo sólido, ou mesmo que exista. Ação e Reação, Gravitação, Espaço e Matéria, todos esses fundamentos que supostamente explicam nosso universo caem por terra ao tentarmos explicar este novo universo.
Comentários à parte: não mais surpreendente que isto, está o homem moderno, que se regozija a todo instante de sua inocente arrogância quando se atreve afirmar que a realidade que ele demonstra matematicamente hoje é a verdadeira realidade. Estamos apenas cometendo o mesmo erro de nossos ancestrais.
Retornando. Vemos, portanto, que a realidade que nós humanos  vivemos a todo instante, nada mais é do que uma complexa operação de classificação, organização, interpretação e armazenamento de sinapses cerebrais criadas pelos órgãos sensoriais. Apenas pulsos elétricos que divagando entre uma complexa rede neural que opera simplesmente alternando a concentração de Potássio ou Sódio em seu meio protoplasmático, se convergem em um centro nervoso onde lá, utilizando-se de todas as outras “experiências” já armazenadas, ele “calcula”, por modelos matemáticos lógicos e de forças dualísticas(opositoras), o que é mais útil ou inútil, bom ou mau, positivo ou negativo a si mesmo.
E todo esse modus operandi, cuja consciência trabalha ao longo da vida, irá necessitar de requisitos de operação, onde estes, obrigatoriamente têm que obedecer aos preceitos e condições lógicas da percepção, ou seja, uma espécie de ordem lógica que permita a consciência atingir a luz da conclusão e por fim chegar a ação voluntária positiva ou conveniente.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do Raciocínio Pensante


Como declarado anteriormente, nos parece que natureza provém ao ser aquilo que é necessário à sua sobrevivência. E não seria diferente com o ser humano.
            Não quero discorrer sobre a forma de pensamento. Não precisamos dissecá-lo para entender se sua origem é metafísica ou material, se é finalista ou mecanicista, se é temporal ou atemporal. Ao que nos convém no presente momento, basta apenas sabermos no que isso nos interfere e influencia.
            A natureza não desperdiça seus recursos com o ostentoso. Tudo que ela provê a um organismo tem uma função que lhe é útil a vida, seja direta ou indiretamente. Conseqüentemente, não precisamos divagar muito para concluir que mesmo nossa capacidade mais extraordinária, que alguns animais como macacos, elefantes, baleias, ou golfinhos (animais estes que interagem e manipulam seu meio ambiente para conseguir benefícios) também possuem, que é a de prever uma determinada situação complexa de acordo com nossas ações, só existe para que possamos manter nossa integridade física e nosso bem estar.
            O ser humano foi mais além. Em comparação com outros animais vertebrados, ele desenvolveu seu cérebro a patamares fora do comum permitindo-o estar entre as espécies mais bem sucedidas da natureza até o momento.
Assim outrora, Henri Bérgson escreve: “Mas,contra essa idéia de originalidade e da imprevisibilidade absolutas das formas, toda nossa inteligência se insurge. Nossa inteligência, tal como a evolução da vida a modelou, tem por função essencial iluminar nossa conduta, preparar nossa ação sobre as coisas, prever, com relação a uma situação dada, os acontecimentos favoráveis que podem se seguir. Instintivamente, portanto, isola em uma situação aquilo que se assemelha ao já conhecido; procura o mesmo, a fim de poder aplicar seu princípio segundo o qual "o mesmo produz o mesmo." ” .
            Nossa capacidade de observar, medir, classificar, simular e prever nos permitiu ter, gradualmente, o poder de “controlar” a natureza. E quando me refiro a “controlar”, quero apenas dizer que o homem pode ter pego a direção do “veículo”, mas certamente o caminho que ele está conduzindo este veículo é incerto e duvidoso.
            Porém, não será surpresa a ninguém se ao observar que todas essas observações, todas essas medições, todas as classificações, todas as  simulações e previsões, perceber que tudo não possui outra finalidade senão a manutenção da própria vida. Mesmo se uma empresa que vende um produto, ela só vende porque o empresário busca lucro, cujo o mesmo é o meio para a manutenção de seu próprio bem-estar, e conseqüentemente, auto-preservação. O cliente só compra um produto porque aquele atende a alguma finalidade ou diretamente relacionada com sua auto-preservação ou relacionada com seu bem estar, que direta ou indiretamente, leva a sua auto-preservação.
            Não há como escapar da natureza egoísta de um ser vivo. É um sentimento, ou diria atitude, latente contida nele mesmo, sendo ele uno em sua compreensão de existência em seu próprio universo, é mais do que natural de que tudo deva girar em torno dele. Portanto, toda a ação viva, direta ou indiretamente, está voltada para sua auto-preservação ou para seu próprio bem estar.
            Segundo Sócrates, o ser humano costuma definir o bom ao que é útil a si mesmo e conseqüentemente o beneficia de alguma forma, e o mau ou ruim o que é inútil, e por sua vez o prejudica de alguma forma. E a utilidade de algo, seja ele concreto ou abstrato, muitas vezes não trás a verdade ou o conhecimento de sua utilidade em si mesmo, e portanto eles precisam serem aprendidos ou informados. Daí que podemos afirmar que  nenhum ser humano sente vontade daquilo que não conhece, pois  na prática desconhece sua utilidade.
            Como ser racional que precisa de conhecimento, ou seja precisa de medidas, grandezas e parâmetros para poder concluir o que lhe é útil e inútil, e poder decidir aquilo que melhor lhe convém,  não há nada mais desconfortante ao ser humano do que a dúvida. Pior do que ter a ciência de que algo é mau ou do inútil, é não ter a ciência sobre utilidade e inutilidade sobre esse algo. E nisso consistia a força da retórica grega, que Sócrates chamava de adulação: que era promover ao ouvinte a certeza sobre um assunto utilizando-se de uma série de argumentos que se correlacionam entre si ou por sofismos ou aforismos,  para promover a certeza, e conseqüentemente o bem-estar do ouvinte. E obviamente que a dúvida precisa ser observada, ou melhor, percebida. Portanto, o indivíduo só dará atenção necessária a algo quando ele perceber que o efeito advindo do mesmo o influencia de alguma forma, e só a partir deste momento ele irá se debruçar sobre o problema trazido por esta nova observação. Ocorre que, quando a observação e o conhecimento que  um “algo” ou uma ação  carregam de verdades em si atingem o limite do observado e do esclarecido, surgem outras dúvidas, e a primeira e mais óbvia de todas será o por que de algo carregar esta verdade em si ? Ou seja: todo o conhecimento e esclarecimento de um determinado problema, levará o indivíduo a uma nova dúvida, cuja esta, quando for também esclarecida, levará novamente o indivíduo a uma nova dúvida, e isso irá tender ao infinito até o conhecimento pleno do universo, portanto, jamais.
            Como visto, o útil e o inútil, tanto de uma ação como a de um objeto não trazem essas verdades em si e sim em suas finalidades. A água salgada não é útil a mim, mas é útil ao ser marinho. A guerra é útil a uma nação, mas é inútil a vida. O pasto é útil à gazela mas não é útil ao leão, e a gazela é útil ao leão mas não é útil a zebra. Ser generoso com um indivíduo necessitado é útil e ser generoso com um indivíduo abastardo e mimado não é útil.
Enfim, ao passo que se analisarmos que toda a ação ou objeto possui uma finalidade diretamente relacionada com a utilidade e inutilidade, e como infelizmente tendamos a observar os fenômenos por suas conseqüências, ou seja depois que eles ocorrem, o conhecimento da finalidade remete sempre a causa, que por sua vez é a finalidade de uma outra causa e assim infinitamente.
Portanto, como observa Sócrates, o verdadeiro discurso didático voltado para o argumento lógico irá trazer ao espectador  sempre uma nova dúvida.
            Certamente que o homem se satisfaz quando a utilidade de algo está na medida do que lhe convém e não é preciso investigar mais adiante. Mas é inevitável que em determinado momento de sua história, que normalmente seria quando o conhecimento da uma utilidade presente não atende mais as circunstâncias do ser humano, ele irá buscar novos conhecimentos dessas causas. Seja para aprimorar um meio já existente,  seja para produzir um novo.
Sobretudo o raciocínio só nos é útil quando nos conduz a uma certeza e jamais a uma dúvida. Nota-se aí a facilidade da ciência, já que esta atua sobre um universo material que pode ser facilmente dividido, classificado, mensurado e sobretudo experimentado, o simples universo das causas e conseqüências dos fenômenos da física natural, que é tão certa e real quanto a própria matéria, embora também conduza a enganos. Mas que já não podemos dizer o mesmo com relação a tudo que é metafísico ou produto da vida. Uma coisa é explicar os fenômenos químicos e biológicos que conduzem o mecanismo da vida no ser, que na realidade são ciências baseadas nos conhecimentos físicos  reais e materiais mencionados a pouco. Outra coisa é estudar a finalidade deste ser em seu contexto universal, algo quase impossível. No entanto, nossa ciência só é capaz de reter das coisas apenas o aspecto da repetição, pois só é válido para ciência como verdade, aquilo que pode ser demonstrado, ou seja, repetido, seja empiricamente, ou matematicamente.
O raciocínio, seja ele de finalidade científica, ou seja que atua sobre a matéria, seja ele de ordem social ou filosófica, sempre se dá na nossa mente de forma fragmentada, e sempre condicionada a grandezas e fenômenos perceptíveis a nossa realidade sensorial e cognitiva, que é baseada no sólido, material, e no causal.
O raciocínio sempre se baseará em uma causa, e chegará obrigatoriamente a uma conseqüência. Não há raciocínio que parta do simples nada para se chegar a uma conclusão de uma finalidade, ou o próprio termo seria contraditório.  Oras, e o que é o raciocínio senão nada mais do que a busca pelo “por que” ? Contudo, o simples porque já implica na obrigatoriedade de um agente causador.
Os cosmologistas atuais afirmam que para se entender o big-bang é necessário ter em mente que antes dele havia o mais absoluto nada. São enfáticos ao afirmar que a necessidade da aceitação do nada é essencial para a compreensão da nascimento do Universo. Curiosamente, são os mesmos cientistas que dizem aos religiosos que Deus não criou o Universo porque no universo nada foi criado a partir do nada, mas são obrigados a aceitar que existiu o nada para que o universo pudesse ter sido gerado por sua própria teoria. Mas isso é tema para outro tópico ou documento.
Porém é conveniente enfatizar o quanto a idéia do nada é confusa ao ser humano. Como já afirmava Emmanuel Kant, a idéia de nada não pode ser concebida pelo raciocínio humano por si só, pois o nada, nada mais é do que o inexistente. Em nossa mente, quando exprimimos a idéia de nada ou inexistente, na verdade estamos atribuindo um adjetivo a um substantivo, pensamos primeiro no objeto e depois atribuímos sua inexistência. E ao tentar idealizar o verdadeiro inexistente ou o nada absoluto, veremos isto como sendo impossível, e que precisaremos sempre de uma referência a quem atribuir este nada. Oras! Podemos adentrar em uma sala vazia e dizer que não há nada lá. No entanto ao dizer que não há nada nesta sala, estamos nos referindo ao simples nada com relação a o que nos é útil na circunstância. Porque certamente se existe uma sala é porque existem paredes, uma batente de entrada, uma porta, um teto, um piso, enfim, se nos atermos até os detalhes mínimos, veremos que na realidade as quantidades de elementos e eventos ocorrendo nesta minúscula sala também se estendem ao infinito.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Do instinto natural de auto preservação e bem estar




Não é difícil pormos nossa consciência a raciocinar quanto a este assunto. O instinto natural é inato a todo o ser vivo. O que difere é a forma como cada ser considera quais fatores externos lhe preservam a vida ou não, e como os percebem. 

De uma forma geral, ao menos olhando pelos olhos de nosso universo material, a vida nada mais é do que tornar matéria inanimada em animada; dar-lhe uma consciência, mesmo que em diferentes naturezas e que nos parece ser apresentados como graus de evolução. E quando me refiro à matéria consciente, quero dizer somente que ela precisa apenas ter a menor ciência dos efeitos que o meio externo aplica sobre a ela mesma, seja pelo puro reflexo do estado vegetativo, seja instinto ou pela inteligência, para que sua natureza de consciência tome a ação necessária que melhor lhe convenha à seu bem estar e integridade física. 

Ambas as consciências, vegetativas, instintivas e inteligentes - não diferem em causas e finalidades, mas apenas em natureza dos meios e formas que essa matéria consciente possui para interagir com o ambiente externo, pois o objetivo final continua o mesmo. Cada espécie dessa evolução corresponde a um nível de interação. Todos os seres são dotados de sensores, sejam por um simples equilíbrio químico protoplasmático, ou por uma complexa rede de células sensoriais que por sinapses de um conjunto de células nervosas transmitem a um centro nervoso o que está ocorrendo. Não importa, o que importa é que estas ferramentas, meios, são o que tornam essa matéria consciente e que de uma forma ou de outra, sejam por reflexos voluntários ou involuntários, irá permitir, de acordo com as ferramentas que este ser dispõe, de executar uma ação sempre positiva visando a manutenção de sua sobrevivência. 

Contudo ao analisarmos tais comportamentos dos seres vivos, concluímos que todo o ser é dotado de uma “inteligência”, ou melhor de um conhecimento que por sua vez desdobra em uma reação. A questão é, que se o instinto e a inteligência envolvem, ambos, conhecimentos, o conhecimento é mais atuado e inconsciente no caso do instinto, mais pensado e consciente no caso da inteligência. Sim, visto que o ser dotado de inteligência, ainda que tenha sua ação mais pensada, ou seja, prevista, analisada e decidida, sempre, sua decisão será condicionada às ferramentas que ele dispõe para interagir com o meio. Se um carro desgovernado vem em direção a um cachorro na calçada, ele pelo conhecimento que tem do ambiente e os meios que dispõe, apenas irá correr; já se este vem em direção a um homem; este pode ir para trás de um poste, caso exista, ou do contrário, pode apenas correr. E ainda, o homem só iria para trás do poste, porque sabe que o poste pode conter o carro. 

Em nossa vasta natureza, temos seres extraordinários. Alguns, para sobreviver, são tão cientes sobre seu meio que chegam a nos impressionar e, sobretudo, nos faz refletir sobre a verdadeira natureza da inteligência e do conhecimento. Entre eles, na minha opinião, sempre estiveram os parasitas. À exemplo olhemos para o Moscardo do Cavalo, cujo este deposita seus ovos sobre a as espáduas – “ombro” dianteiro - do quadrúpede, e este quando lamber levará estes ovos para o estômago do animal onde se desenvolverão até o estágio de larva. Ou Ascaris Lumbricoides, mais conhecido como lombriga, que em sua singular complexidade teve conhecimento sobre ciclos biológicos naturais que o homem só veio conhecer há algumas dezenas de anos atrás: ela é ingerida como ovo através do alimento contaminado na natureza, se desenvolve no aparelho digestivo do hospedeiro através de um intrincado processo, começando pelo intestino delgado onde são liberada como larvas de um ovo de 50 microns; ao entrarem na corrente sanguínea pela parede do intestino delgado, estas pela corrente sanguínea, chegam ao fígado, onde crescem por alguns dias; em seguida saem do fígado e entram na corrente sanguínea novamente onde agora seguem para o pulmão, onde lá se estabelecem nos alvéolos e vivem de oxigênio e de nutrientes; quando crescem demais para os alvéolos, saem pelos brônquios, onde normalmente serão digeridos novamente pelas secreções de catarro, quando não são escarradas; é então que esta se estabelece definitivamente no intestino delgado até sua reprodução, que é sexuada, onde novamente, os ovos liberados pelas fezes do hospedeiro iniciarão outro ciclo. Ou ainda o Sítaris, que deposita seus ovos nas entradas das tocas cavadas pelas abelhas Antócopa, que é uma abelha solitária; a larva ao eclodir fica a espreita do macho antócopa sair de sua toca e se agarra a ele, onde permanece até o vôo nupcial; então ele salta para a fêmea e irá esperar que esta ponha seus ovos, e ao fazê-lo, salta então para os ovos da abelha, onde permanecerá no mel devorando os ovos das abelhas e depois de alguns dias sofre sua primeira metamorfose, no qual seu corpo agora é feito para flutuar sobre o mel; em seguida consome o mel e torna-se ninfa e depois inseto completo. 

Pois bem. Olhando para todos os seres, com exceção aos humanos “racionais”, é indubitável que seria um erro dizer que não há um tipo de conhecimento envolvido em todos estes processos. 

Nos seres menos complexos, toda a informação necessária para sua sobrevivência pode estar contida em seqüências químicas dentro do próprio DNA ou de células especializadas, com composições químicas em sua membrana plasmática, ou em seu, protoplasma que gerem uma reação assim que algo externo que mereça sua percepção esteja próximo. E assim é a percepção dos seres unicelulares, como é o caso de uma simples ameba que vive no meio líquido. 

No caso dos vegetais, estes se especializaram em transformar elementos químicos dispostos aleatoriamente na natureza e nos minerais em complexas moléculas orgânicas necessárias à sua sobrevivência, e por essa capacidade, não precisam se mover e para tal, e desenvolverem um intrincado sistema locomotor e nervoso para comandar tudo isso. Muito pelo contrário, aperfeiçoaram a rigidez de sua estrutura corpórea. 

Por fim, existem os animais que não tem a capacidade de sintetizarem as moléculas necessárias à sua sobrevivência sozinhos, e portanto sub-existem se alimentando de outros animais ou vegetais. Estes são na sua maior parte, os seres vivos dotados de sistema locomotor, vertebrados ou invertebrados. 

Não importa a espécie e sua forma mais primitiva. Todos são dotados do instinto de auto-preservação, e usarão de todos os meios de que dispõem para manterem seu bem estar, que envolve integridade física, segurança, e por fim, reprodução. 

A natureza, ou Deus, ou o Criador, ou seja lá quem o leitor preferir denominar, enfim, este não erra. Como forma de garantir que o indivíduo vivo cumpra com suas necessidades fundamentais de sobrevivência, ela por sua vez deu a esses seres, a toda e qualquer necessidade fisiológica, um reflexo prazeroso sensível ao ser. Independente de sua natureza química, tanto faz se este efeito se dá por neurotransmissores como sabemos no caso do homem, ou de outros seres dotados de centro nervoso – cérebro - , ou se este se dá por um balanceamento químico de PH, por exemplo, nos indivíduos unicelulares; o que se vê é que aquilo que é bom para a vida do indivíduo, ele o sente como bom, prazeroso e satisfatório. E essa é a motivação que faz os seres buscarem os meios para manterem sua sobrevivência. Nota-se claramente a verdade desta proposição ao, simplesmente, tomarmos como exemplo o orgasmo. Veja que a cópula não é uma necessidade fisiológica do indivíduo vivo. No entanto é uma necessidade da natureza para que esta siga seu curso progressivo de transformação que nós entendemos como evolução. Mas para dar vazão a esse fluxo de continuidade pela reprodução sexuada a natureza dá, ao menos aos indivíduos dotados de centros nervosos, pelo o orgasmo, a maior da volúpia dos prazeres: uma espécie êxtase inigualável cujo indivíduo jamais atingiria em seu estado de ânimo normal. 

Não há enganos.A sábia natureza deu aos seres vivos os prazeres da satisfação de suas necessidades fisiológicas, mas também as tira na medida de satisfação dessas respectivas necessidades. Sócrates discorre sobre tal afirmação com perspicácia: ele dizia que a fome existe pela necessidade do alimento e quanto maior a fome, mais saboroso o alimento se torna, assim como a sede, cuja quanto mais sedento um indivíduo está, mais refrescante a água se torna. Paralelamente ambas, a necessidade e o prazer, apenas coexistem e não se sustentam sozinhas. Ou seja, a comida é saborosa enquanto existe a fome e à medida que sua fome é saciada, a comida já não se torna mais tão saborosa; ao passo que a sede de um indivíduo sedento é saciada, a água já não é mais tão refrescante. E é essa relação diametral entre necessidade e satisfação que guiam o seres vivos em direção àquilo que lhe é mais conveniente, seja diretamente nos seres mais instintivos, ou indiretamente nos seres mais conscientes. Daí a afirmação de Arthur Schoppenhuaer de que todo o ser vivo é egoísta por natureza, e se não fosse por esses prazeres fisiológicos, os seres sequer teriam a motivação para buscarem por suas necessidades básicas. 

O próprio Schoppenhauer, assim como outros antes dele, como John Locke e Jean Jacques Rousseau, afirmam todo o ser vivo é bom por natureza. Pois se hipoteticamente pudéssemos observar a existência de um indivíduo, que desde seu nascimento, é colocado sozinho diante da natureza, veríamos que tudo que este indivíduo tentaria fazer é evitar o mal a si mesmo. Obviamente que este mal, inicialmente seria visto como tudo aquilo que prejudica sua integridade física diretamente: desde os efeitos do ambiente ao redor, como as intempéries naturais, até as ameaças físicas como predadores que pelo ferimento imolam a presa. O restante, que são os malefícios trazidos indiretamente, seja pela intoxicação causada por um alimento estragado ou impróprio, seja por uma doença causada por água contaminada ou por algum fator externo, só seriam evitados quando o ser tivesse a consciência da relação de suas causas para com o efeito. Mas indubitavelmente é a partir do exato momento que o ser toma consciência dessa relação entre o que lhe causa o bem e o que lhe causa o mal é que sua ação passará a ter um sentido. 

No meu singular raciocínio, é neste ponto onde o instinto e consciência se fundem. Pois ao dizer que somos conscientes porque agimos de forma pensada, não estamos considerando o principal, que são os fatores que nos condicionam às nossas escolhas, pois ao analisarmos mesmo nossas ações pensadas de forma conscientes, veremos sempre que elas estão guiadas para nosso bem estar, da mesma forma que ocorre com os seres ditos instintivos. 

Mesmo a capacidade de previsão dos humanos conscientes, que só lhes é permitida graças ao conhecimento cumulativo, que por sua vez permite ao pensamento executar pequenos simulacros de realidade para chegar nas conclusões necessárias, todas estas não visam outra coisa senão o bem estar do próprio indivíduo. A capacidade de pensar, simular e portanto prever, permite ao ser humano determinar a longo prazo o que lhe é melhor ou pior. E essa capacidade estará diretamente relacionada com o conhecimento que o indivíduo possui acerca da natureza e dos fenômenos que o cerca. E certamente que quanto mais conhecimento, certo e verdadeiro, acerca do ambiente ao seu redor, melhor será sua simulação e a conclusão que advém dela, para que assim ele tome a melhor decisão. 

Como vemos não há uma diferença de graus de escolha entre o ser consciente e o instintivo, mas sim uma diferença de meios, ou de natureza, de como este ser vivo opera sua decisão. 

Toda a ação de um ser vivo é egoísta: até mesmo uma beata que faz uma caridade, somente o faz porque acredita que terá uma recompensa futura que ela acredita ser necessária a sua vida em um outro mundo ou plano. Mesmo as convenções sociais e a ética são guiadas por essas diretivas, já que mesmo os mais estranhos códigos de ética ou comportamentos só existem ou existiram porque aqueles que o seguem pensam que agindo sob tais preceitos terão melhores meios para manterem sua vida. São nestas premissas que se baseiam a ação racional e o conhecimento como moderador do ser humano. E como afirmava Schoppenhauer: só se convence alguém a desistir de um ato egoísta se demonstrarmos a este indivíduo que abdicando deste ato ele conseguirá benefícios maiores ainda. 

Ao passo que tomamos como defeito, ou falha, tudo aquilo que nos prejudica como indivíduos, se pudéssemos olhar a natureza como um todo, veríamos esses aspectos negativos como um devir positivo da necessidade da vida. Nada é mais negativo para um indivíduo natural do que sua própria morte, no entanto no conjunto natural, essa morte nada mais representa do que uma transformação ou uma passagem. Transformação essa que permite a natureza seguir seu curso de evolução para conceber a próxima geração de indivíduos, que de acordo com a necessidade do todo, se aperfeiçoam ou se extinguem para adaptarem-se às mudanças do ambiente.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"Judeolatria" é retórica !!

Olá meus caros.

Também frequento o Orkut, e estes dias fui expulso da comuna História, cuja a qual era membro há pelo menos 5 anos, e gostaria de lhes contar o porquê.

Pois bem.

Ao ver um post sobre 2º Guerra, não me lembro ao certo, mas acho que era sobre crueldades que não foram feitas apenas por nazistas, notei que os posts originais haviam sido apagados, mas as respostas não. Além dos tradicionais ataques morais, eu notei um tipo de retórica bem peculiar que se faz presente em quase todo o argumento onde o debate envolve o povo judeu: parece ser um tipo de retórica que prefiro chamar de “judeolatria”.

A questão que levantei foi quando citei o livro de Voltaire, chamado Filosofia da História.

No livro Voltaire, que teve acesso a escritos antigos, inclusive de Heródoto, explica a origem dos povos e como sua história é formada.

E segundo o autor, todo o povo que quer ser grande deve ter ancestrais que fizerem grandes coisas, enfrentaram grandes inimigos e inclusive os venceram. E certamente que todas as civilizações criam essas histórias.

Foi assim com gregos (mitologia), com os hindus(os Vedas), com os persas(mitraismo), e claro que com os judeus também.

E a questão que levantei foi, algo que Voltaire é inclusive enfático, qual o motivo de um povo fazer o mais difícil quando se tem o mais fácil em mãos. O que quis dizer é que, em meio a uma guerra, onde todos os supostos direitos civis já estariam suspensos ou ignorados, onde existiam milhares de métodos mais simples, menos trabalhosos e mais eficientes de se matar (alias isso é que mais se fez na humanidade), por que os alemães utilizariam de toda aquela “parafernália de extermínio” extremamente onerosa e perigosa ? Os megacampos de extermínio com utilização de camaras de gases extremamente perigosos e de difícil operação, propaganda para "disfarçar" o extermínio, enfim, quando estudo 2º Guerra e Holocausto, me parece que os Alemães tentaram fazer o impossível para matar judeus.

Oras, na Rússia ou em Ruanda, o extermínio étnico se dava nas ruas e nas próprias casas, bastou propaganda, a mesma que os alemães também se utilizavam.

Ainda no tópico, fiz uma analogia entre as histórias do nazismo e holocausto, onde muitas delas estão descritas na forma de retórica, com fraco embasamento lógico, pouca evidência forense ou científica, mas repleta de conteúdo emocional, onde a crueldade (independente do custo para isso) é o atributo mais notório.

E para encerrar disse que apenas acreditaria nessas histórias de crueldade extrema no momento em que elas apelassem para a razão.

Efim, não havia citado uma obra revisionista, ou mesmo feito apologia ao nazismo, quis apenas fazer sobressair a lógica da natureza humana, algo com que todos nos identificamos porque agimos sob a mesma lógica.

As respostas foram as costumeiras quando se trata destes assuntos. Agressões morais, opiniões e, principalmente, judeolatria.

Alguns associaram o ódio do povo judeu porque eles são superiores, e então começaram a citar Einstein, Freud, Marx. Outros usaram contos bíblicos como referência, enfim como eu disse, a retórica da judeolatria.

Não satisfeito com as respostas, tive que responder.

Tive que citar as próprias palavras de Voltaire.

“Não há nada que o povo judeu inventou por si próprio, nem sua própria religião.”

Tudo foi cópia dos egípcios, que por sua vez tiraram dos gregos. Resumi que Moises é a cópia de Baco, dos 10 mandamentos 8 estão no Livro dos Mortos dos Egípcios (a biblia deles), Sansão é a alegoria de Hercules, entre muitos outros..

Também falei sobre os prodígios modernos.

Disse que Marx simplesmente reuniu os maiores idéias humanistas da história, compilou em uma ideologia, só que agora econômica. Disse que os princípios do humanismo eram encontrados em Aristóteles, Sócrates, Seneca, More, Rosseau, Shoppenhauer, e vários outros.

Sobre Freud, citei Maomé que já sabia que o ser humano tinha sua psique totalmente induzida pela sexualidade(e por isso o rigor do islã). Disse que um cardeal (que não me lembro o nome, mas quem quiser encontra a referência em "Filosofia Perene" de Aldous Huxley, onde o próprio autor, austero crítico do nazismo em seu livro, nega Freud como criador ) escreveu uma obra inteira sobre a sexualidade humana dizendo o mesmo que Freud disse.

Falei sobre Einstein e questionei por que novamente precisariam fugir do natural, procurando a explicação mais difícil ?

Comparei. Disse que Mozart foi gênio aos 12 anos, Beethoven aos 9, Isaac Newton aos 17, Tesla aos 18, mas estranhamente Eisntein foi apenas aos 40...

Citei a entrevista de César Lattes(maior físico brasileiro, um dos fundadores da Unicamp, também judeu) onde ele chama Einstein de uma fraude. Onde ele cita que no Livro de História da Universidade de Whittaker na Inglaterra, a relatividade está atribuída a Henri Poincaré, Maxwell e Leibniz, embora Giordano Bruno já dissertava sobre a cosmologia da Relatividade no século XVI. E=mc2 é apenas uma equação de resultante que qualquer aluno do 2º Grau poderia postular, semelhante a equação de resultante peso. Era tão burro, que em sua primeira edição de sua Teoria Geral, ele confundia grandeza com medida de grandeza;

Falei de Alexander Grand Bell que havia roubado o invento de Antonio Meucci que morreu durante os julgamentos contra a Bell. Disse que os Eua já haviam devolvido a patente para a família Meucci e hoje a Bells e ATT pagam indenizações vitalícias para a família.

Falei sobre o prêmio Nobel e disse que Alfred Nobel era judeu e que era muito natural essa instituição premiar os próprios. Disse que era mais ou menos como o Troféu Imprensa, como o Oscar, e todos esses prêmios que servem de eufemismos e ufanismos. Critiquei sim sua credibilidade, afinal Obama mandou 30 mil para uma Guerra e ganhou um Prêmio Nobel da Paz no mesmo ano em que Bush concorreu, acreditem, para o mesmo prêmio. Penso que o prêmio Nobel nada mais serve de instrumento político e lobby, para justificar fundos científicos milionários de pesquisas sobre coisas que na grande maioria das vezes, de nada nos servem em nosso cotidiano.

Critiquei aqueles que insistiam nos insultos, mas não xinguei. Apenas disse que eu os desprezava.

Apelei apenas para que as pessoas buscassem por si mesmas pela a informação. Ressaltei o pensamento de Sócrates de que não existem certo e errado pela a ação em si própria e sim devido a sua finalidade e que portanto , deveriam buscar sempre as causas e conseqüências das causas e conseqüências, infinitamente, até onde conseguirem, e assim tenham seu próprio julgamento. E alertei para que prestassem muita atenção em um discurso e que se este discurso lhe causasse qualquer emoção, inclusive o entendimento pleno, tratar-se-ia de uma retórica.

E por fim disse que o que mais me irritava em tudo isso não era o fato de um povo criar essas histórias ou não, já que todos criam, mas sim o fato de quererem usar esse ufanismo (que se não forem enganos, são pelo menos dúvidas) para se sobressaírem em qualquer discussão, seja ela sobre nazismo, sobre etnias, sobre Oriente Médio e tudo o mais.

E por fim, mesmo sem ter citado um autor revisionista ou ter elogiado um momento o nazismo; mesmo tendo todas as informações acerca dos prodígios modernos encontradas em diversos conteúdos que não possuem tendência ideológica, até mesmo no Wikipedia, o moderador da comuna me chamou de Revisionista.

E quando fui reclamar com o moderador ele disse que me expulsou por não concordar com minhas opiniões. Nem ao menos teve a hora de dissertar sobre o que não concordava, apenas apagou meus posts e me baniu, como se todas as minhas referências não passassem de opiniões, como se a história já estivesse pronta e acabada por si só.

Portanto, só me resta compartilhar essas "opiniões" com vocês.

Sds

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Jornalismo ou Retórica ?



O que se vê em nossa imprensa, e acredito que em todas as imprensas do mundo possui um nome.
Penso que se parece com qualquer coisa menos com a informação.

Na teoria convencional poderíamos chamar de retórica.

Sócrates, em Diálogos de Platão (Sócrates, Górgias e Cálicles, da Retórica) foi o homem que melhor definiu a diferença entre um discurso didático do discurso retórico. Devemos entender que o discurso se trata de qualquer informação que estejamos abertamente passivos de absorver, cuja a qual estamos apenas sujeutos a análise.

Mas, qual é o princípio do discurso didático ?

É fazer o indivíduo concluir através do conhecimento transmitido no discurso a relação lógica de cada causa e consequência de determinado fato.
A questão é que como não existe o bom e o mal, ou o certo e errado, mas sim o porquê, já que nenhuma ação é boa ou ruim em si, mas devido sua finalidade, a didática em geral leva apenas uma coisa: mais dúvidas. Natural, já que seguindo essa lógica, você busca a causa da consequência da causa da consequência, e assim infinitamente, de cada coisa.
Portanto o discurso didático não leva a emoção alguma, nem de entendimento, nem de prazer nem ou de ódio, mas sim, leva apenas a uma nova dúvida, e a dúvida nunca é prazeroza. É melhor termos uma certeza de algo ruim do que a dúvida se algo é bom ou ruim.

Já a retórica não.
Sócrates, inclusive faz piada com Georgias, os chamando de Aduladores. Pois segundo ele a retórica servia apenas para trazer prazer ao ouvinte. Em geral ela mexe com os sentimentos. O prazer a que Sócrates se refere, trata-se da certeza, ou seja, faz erroneamente o ouvinte achar que compreendeu totalmente o assunto, e por conseguinte levando a seu julgamento final de acordo com seus valores trazendo alegria ou ódio.


Assim sendo, permitam-me pedir simplesmente apenas para que os leitores reflitam por si.
Pois oras ! Não vejo como é possível julgarmos algo muito complexo quando as evidências que nos são dadas, ou seja, o conhecimento das respectivas causas e consequências, são insuficientes ?
Se na justiça convencional, um simples processo sobre assassinato pode ter até 500 páginas. O que te faz pensar que 2 páginas de uma revista ou 10 minutos de imagens e informações editadas servem para convecê-lo de algo. Cada frase e cada palavra deste processo são evidências e servem de "pesos para a balança" do julgamento. E julgar algo baseado em poucas evidências, inevitavelmente leva a a justiça a ser injusta. E o mesmo acontece com nosso julgamento acerca das notícias que vemos. Ou demonizamos, ou exaltamos, mas em raríssimas vezes, julgamos de fato.
A forma que imprensa transmite a informação é sutil. O tom de afirmação objetiva é constante, a linguagem segue uma formalidade excessiva dando a impressão de superiordade, fazendo com que o ouvinte ou o leitor se rebaixe e automaticamente o deixa suscetível à respectiva opinião. A parcialidade de interesse de grupos, classes e instituições chega a ser insultante e nunca os dois lados de um conflito são expostos com ênfases semelhantes.
Se a informação não vem impressa em uma excelente tiragem, com um conteúdo gráfico igualmente excelente, mas nem por isso menos "retórico", então é transmitida por âncoras de TV e reporteres, com a mesma presunção de certeza (como se fossem realmente testemunhos do fato), alguns de oratória invejável, e embora a obrigatoriedade seja de ter uma aparência austera e de credibilidade, alguns se evidenciam e sobressaem mais por sua beleza do que propriamente pelo serviço que prestam, fazendo de si mesmos a notícia, do que propriamente a informação a ser transmitida.

Tudo isso não passa de Adulação. Não passa de um catálogo de compra de "aceite a realidade conveniente". Não presta para nos informar, mas sim para nos convencer, ou seja, adular ou praticar a retórica. E para praticar retórica na imprensa não é preciso mentir, mas apenas omitir os porquês. Robert Fisk, um jornalista inglês costuma dizer: "É sempre quem o quê, mas nunca o porquê."
Se existe algo que é infinitamente ambundante em nosso universo de relações humanas, esse algo são os porquês. São tão antigos e serão tão eternos quanto a própria existência do ser humano. E naturalmente que ignorá-los nada mais é do que negligenciar o próprio julgamento.
É melhor ser ignorante do que ter um conhecimento equivocado a respeito de algo.

Sds.