sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Jornalismo ou Retórica ?



O que se vê em nossa imprensa, e acredito que em todas as imprensas do mundo possui um nome.
Penso que se parece com qualquer coisa menos com a informação.

Na teoria convencional poderíamos chamar de retórica.

Sócrates, em Diálogos de Platão (Sócrates, Górgias e Cálicles, da Retórica) foi o homem que melhor definiu a diferença entre um discurso didático do discurso retórico. Devemos entender que o discurso se trata de qualquer informação que estejamos abertamente passivos de absorver, cuja a qual estamos apenas sujeutos a análise.

Mas, qual é o princípio do discurso didático ?

É fazer o indivíduo concluir através do conhecimento transmitido no discurso a relação lógica de cada causa e consequência de determinado fato.
A questão é que como não existe o bom e o mal, ou o certo e errado, mas sim o porquê, já que nenhuma ação é boa ou ruim em si, mas devido sua finalidade, a didática em geral leva apenas uma coisa: mais dúvidas. Natural, já que seguindo essa lógica, você busca a causa da consequência da causa da consequência, e assim infinitamente, de cada coisa.
Portanto o discurso didático não leva a emoção alguma, nem de entendimento, nem de prazer nem ou de ódio, mas sim, leva apenas a uma nova dúvida, e a dúvida nunca é prazeroza. É melhor termos uma certeza de algo ruim do que a dúvida se algo é bom ou ruim.

Já a retórica não.
Sócrates, inclusive faz piada com Georgias, os chamando de Aduladores. Pois segundo ele a retórica servia apenas para trazer prazer ao ouvinte. Em geral ela mexe com os sentimentos. O prazer a que Sócrates se refere, trata-se da certeza, ou seja, faz erroneamente o ouvinte achar que compreendeu totalmente o assunto, e por conseguinte levando a seu julgamento final de acordo com seus valores trazendo alegria ou ódio.


Assim sendo, permitam-me pedir simplesmente apenas para que os leitores reflitam por si.
Pois oras ! Não vejo como é possível julgarmos algo muito complexo quando as evidências que nos são dadas, ou seja, o conhecimento das respectivas causas e consequências, são insuficientes ?
Se na justiça convencional, um simples processo sobre assassinato pode ter até 500 páginas. O que te faz pensar que 2 páginas de uma revista ou 10 minutos de imagens e informações editadas servem para convecê-lo de algo. Cada frase e cada palavra deste processo são evidências e servem de "pesos para a balança" do julgamento. E julgar algo baseado em poucas evidências, inevitavelmente leva a a justiça a ser injusta. E o mesmo acontece com nosso julgamento acerca das notícias que vemos. Ou demonizamos, ou exaltamos, mas em raríssimas vezes, julgamos de fato.
A forma que imprensa transmite a informação é sutil. O tom de afirmação objetiva é constante, a linguagem segue uma formalidade excessiva dando a impressão de superiordade, fazendo com que o ouvinte ou o leitor se rebaixe e automaticamente o deixa suscetível à respectiva opinião. A parcialidade de interesse de grupos, classes e instituições chega a ser insultante e nunca os dois lados de um conflito são expostos com ênfases semelhantes.
Se a informação não vem impressa em uma excelente tiragem, com um conteúdo gráfico igualmente excelente, mas nem por isso menos "retórico", então é transmitida por âncoras de TV e reporteres, com a mesma presunção de certeza (como se fossem realmente testemunhos do fato), alguns de oratória invejável, e embora a obrigatoriedade seja de ter uma aparência austera e de credibilidade, alguns se evidenciam e sobressaem mais por sua beleza do que propriamente pelo serviço que prestam, fazendo de si mesmos a notícia, do que propriamente a informação a ser transmitida.

Tudo isso não passa de Adulação. Não passa de um catálogo de compra de "aceite a realidade conveniente". Não presta para nos informar, mas sim para nos convencer, ou seja, adular ou praticar a retórica. E para praticar retórica na imprensa não é preciso mentir, mas apenas omitir os porquês. Robert Fisk, um jornalista inglês costuma dizer: "É sempre quem o quê, mas nunca o porquê."
Se existe algo que é infinitamente ambundante em nosso universo de relações humanas, esse algo são os porquês. São tão antigos e serão tão eternos quanto a própria existência do ser humano. E naturalmente que ignorá-los nada mais é do que negligenciar o próprio julgamento.
É melhor ser ignorante do que ter um conhecimento equivocado a respeito de algo.

Sds.



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