domingo, 24 de março de 2013

Da Percepção


 
            Aldous Huxley, em sua obra “Portas da Percepção”, que na verdade é um relato de suas auto-observações quando esteve, ele mesmo, sob efeito de mescalina, discorre de forma interessante com relação a percepção. Ele diz que nosso cérebro, em seu estado normal, funciona como um filtro que tende a selecionar como perceptível somente aquilo que lhe é essencial e necessário a vida, enquanto que aquilo que é supérfluo é desprezado ou despercebido. Ele afirma que se nosso cérebro pudesse perceber todos os fenômenos que ocorrem ao seu redor o ser humano enlouqueceria com a quantidade de informação e eventos que teria que lidar.
            Certa vez, há mais de quinze anos, em um livro budista li sobre uma experiência onde deram a um homem um óculos cuja as lentes distorciam toda a visão de forma assimétrica( quero dizer, diferente da forma que uma lente corretiva distorce a visão quando o míope ou hipermétrope os põe pela primeira vez, que possuem distorções, côncavas ou convexas, porém simétricas), dando formas bem distorcidas dos contornos e vultos que se transpareciam pela lente, e este homem teria que usar este óculos indefinidamente sem o tirar. Ocorre que nos 3 primeiros dias o homem não conseguia definir um objeto a um metro de distância, sentia enjôos e tonturas, mas conforme os dias se passavam o homem começou a adaptar-se as lentes e seu cérebro corrigiu todas as distorções fazendo-o enxergar as coisas como eram de fato. Porém o que devemos concluir com isso?  Se trata de uma adaptação do cérebro. Mas quais os parâmetros que o cérebro utilizou para corrigir essa visão distorcida? Será que o conhecimento prévio das coisas como eram, ou seja, como que uma reta, ou uma curva, ou um canto, ou uma profundidade, e de como se manifestam na retina dos olhos, ou o cérebro com algum tipo de percepção extra-sensorial consegue estimar o que há além do sentido da visão para corrigi-la? Sem dúvida o mais sensato seria aceitarmos a primeira proposição, o que nos remete a uma afirmação inexorável: a de que de uma forma ou de outra o ser humano enxerga aquilo que ele quer ver.
            A percepção, de toda e qualquer natureza, seja pela visão, audição, paladar, olfato e tato, são os sensores humanos que delineiam a realidade com a qual o raciocínio irá trabalhar. São estas faculdades que definem ao humano os limites de seu universo de existência e como reproduzi-los em sua mente. Enquanto uma cor se manifesta na mente pelo sentido da visão, a temperatura se manifesta pelo sentido do tato, porém em aspectos físicos, ambos se manifestam no espaço por ondas. Todas estas capacidades sensoriais humanas trabalham em conjunto com o raciocínio, como delimitadores do pensamento e da conclusão.
            Toda essa complexa rede de órgãos sensoriais que compõem a  percepção estão tão intrinsecamente ligados a noção cognitiva de realidade como que a forma do objeto está para a geometria. Imagine tentar descrever a um cego de nascença o que viria a ser a cor verde. Embora poderíamos descrever algumas características da cor, como a forma de sua onda, como uma analogia para o entendimento, jamais poderíamos descrever de fato o que é realmente enxergar a cor verde.
            De forma mais simplista ainda, porém não menos verdadeira, eu diria que os sentidos da percepção são para o raciocínio o que as cartas de baralho são para um jogador: apenas um conjunto de números que o jogador dispõe em mãos, e que de acordo com as regras do jogo ele as deve usar como melhor lhe aprouver.  E o que são os sentidos senão órgãos que trazem à consciência ordens qualitativas e quantitativas de estímulos nervosos causados por fenômenos externos, que agrupados e relacionados em conjunto, compõem uma espécie de simulacro que permite prever um evento externo, para que de acordo com o que nos for mais útil, poder decidir que ações tomar na realidade ?
            Oras! Poderíamos avançar mais adiante ainda. Pergunto ao leitor qual lembrança que há em sua memória, ou pensamento que se tenha formado, cuja origem não tenha sido submetida pelo crivo dos sentidos? Não seria exagero algum afirmar que todas as lembranças de um humano adulto nada mais são que tudo aquilo que ele viu, ouviu, cheirou, experimentou e tocou? E que mesmo a emoção está diretamente relacionada com estes sentidos? E conseqüentemente, o que formou o caráter desses homens nada mais foram do que a compreensão, a reflexão, a comparação, a justaposição de todas essas lembranças.  Rene de Descartes foi sábio ao afirmar que todos os homens pensam da mesma forma, o que os difere fundamentalmente entre si é a forma que cada um enxergou o mundo. E claro que o termo enxergar, no caso, se estende mera visão.
            Devido as limitações as quais a percepção humana está condicionada, sua inclinação é de ordem reativa,  e se conduz somente pelo caráter empírico. É sentido por ninguém mais além do agente perceptor. Quando a percepção de um perigo é iminente, o instinto e os dispositivos de auto-preservação entram em ação, como quando mordemos algo muito duro e a dor em nossos dentes faz a mandíbula abrir imediatamente. Porém quando os estímulos de uma determinada percepção são suportáveis, e assim observáveis, utilizamo-nos das informações dadas pelos nossos órgãos sensoriais para voluntariamente tomarmos a ação que melhor convém.
            Ora. Nada mais lógico afirmar que quanto menos raciocínio um ser vivo usa, e conseqüentemente depende dele, mais apurados(e precisos) serão seus órgãos sensoriais. Com base em essa simples ciência da relação de percepção e raciocínio, concluímos que complexidade de um órgão sensorial passa a ser um fator atenuante ou agravante da classificação de comportamento instintivo. Certamente que quanto mais intenso um estímulo se manifestar nos meios cognitivos de um ser, mais prazerosos ou insuportáveis serão esses estímulos para este ser, e assim seu centro nervoso, com uma aguçada percepção e distinção entre o que parece ser bom e o que parece ser ruim, não irá ter dificuldades para decidir quais ações ou atitudes adotar em determinada circunstância.
             A maioria dos animais selvagens vertebrados se utilizam de um  olfato extremamente aguçado para os auxiliarem a rastrearem uma caça,  a detectarem uma ameaça, ou inspecionarem um alimento que irão comer ou a água que irão beber. Dotados de poderosos instrumentos sensoriais que permitem detectar partículas de até partes entre milhões, quem iria precisar do conhecimento ou do raciocínio para tomar uma ação se tem em aos o melhor dos medidores ? Enquanto nós ao olharmos um pedaço qualquer de comida na natureza teríamos que usar de preposições do conhecimento, como determinar a quanto tempo que esta comida está lá,  se esteve exposta a calor ou frio, se está com uma cor boa ou não; para o animal de olfato aguçado bastaria uma simples farejada para poder determinar o estado do alimento e o cheiro da podridão em seu estado inicial já seria o suficiente para tornar o gosto do alimento impróprio, pois a intensidade desses estímulos e a percepção do centro nervoso(de prazeroso ou desagradável) seriam diretamente proporcionais a quantidade de células sensoriais do sentido.
            Não nos enganemos. Novamente sou enfático: a Natureza não ostenta. Ela não irá nos dar recursos sensoriais aguçados, que por sua vez consomem energia que o organismo em seu todo terá que suprir, para ter que depois colocar um centro nervoso de alta complexidade para apenas afirmar o que o órgão sensorial já constatou.
Assim sendo, nos humanos a natureza moderou a maioria de nossos órgãos sensoriais, deixando, ao que parece, apenas a visão como sendo o órgão sensorial mais complexo, principalmente quando comparada a grande maioria de outras espécies de animais. Não é de se estranhar que é justamente pela visão que o indivíduo é mais persuasivamente iludido.
Nota-se que o raciocínio, tanto humano quanto animal (mesmo que de natureza primária) é matemático. Ou seja, funciona como o princípio fundamental de uma operação básica ou mesmo uma equação: ele precisa de variáveis para poder operar, ou seja, as percepções dadas pelos respectivos órgãos sensoriais constituem a informação de entrada, ou as variáveis. Esse é o método inteligente do raciocínio, utiliza-se de informações de entrada. No entanto, como em uma equação de resultado 0, o raciocínio sempre trabalha de acordo com o que ele considera positivo e negativo, interessante ou desprezível. E com o objetivo de economizar recursos energéticos do organismo em um eventual re-processamento de informação ou com a re-experiência do evento, que pode ser oneroso ao organismo em termos energéticos ou mesmo de risco iminente à integridade física, o centro nervoso tem a capacidade de armazenar toda a informação de uma experiência com a finalidade de ser usada no futuro.
A capacidade de previsão humana advém justamente dessa capacidade de armazenarmos experiências, ou seja: memória. A memória, seja ela empírica ou didática(em todos os aspectos), com suas conclusões positivas ou negativas já formadas irão servir ao indivíduo como novas informações de entrada para outros novos raciocínios que ocorrem em seu cotidiano que auxiliam em sua ação voluntária. Como conseqüência à medida que mais velhos ficamos, mais experiências temos e mais sábios nos tornamos, ao menos com relação a essas experiências. E o aprendizado não empírico que embora também permita ao homem tomar uma decisão voluntária positiva ou negativa só é aceito e utilizado como premissa ou hipótese verdadeira quando ele é coerente com os limites de realidade determinada pelos sentidos, ou pela subjetividade, que veremos mais adiante.
Submetido obrigatoriamente a esta forma de raciocínio, o ser vivo se vê preso ao modelo de realidade estipulado pelos seus sentidos, e por isso nós humanos, por exemplo, ao teorizarmos eventos ou fenômenos que não podemos perceber, como o modelo de um átomo, ou uma força eletromagnética, o indivíduo pensante acaba inevitavelmente determinando, como algo passível de verdadeiro, apenas aquilo que seus sentidos aceitam como verdadeiro, e assim para entender o universo que o cerca, ele precisa estabelecer grandezas para mensurar esses mesmos atributos que ele necessita ter como verdadeiros em um objetivo classificado real. E assim a ciência só consegue explicar, e portanto aceitar, uma teoria quando ela possui grandezas mensuráveis que integram a realidade da percepção humana, como tempo, tamanho, peso, comprimento, estado material, categoria química, e principalmente, a convenção de forças opositoras.
A explanação da ciência sobre o fundamento de forças opositoras se tornou a pedra angular dos teóricos modernos. Ação e Reação, Conservação de Forças, solidez e espaço são nada mais que convenções que só são aceitas pela ciência porque são exatamente sob o véu dessas mesmas leis que nossos sentidos estão submetidos a operarem. Toda a ciência matemática, física ou química não explica a realidade tal como é, e sim nada mais faz, do que explicar a realidade tal como nosso cérebro a percebe. E quando nos colocamos a uma observação mais imparcial e livre destes “dogmas”, em universos quânticos e elementares por exemplo, vemos que nenhum dos 3 fundamentos Newtonianos se firmam. Vemos que a matéria em sua menor dimensão infinitesimal parece nem mesmo se manifestar como algo sólido, ou mesmo que exista. Ação e Reação, Gravitação, Espaço e Matéria, todos esses fundamentos que supostamente explicam nosso universo caem por terra ao tentarmos explicar este novo universo.
Comentários à parte: não mais surpreendente que isto, está o homem moderno, que se regozija a todo instante de sua inocente arrogância quando se atreve afirmar que a realidade que ele demonstra matematicamente hoje é a verdadeira realidade. Estamos apenas cometendo o mesmo erro de nossos ancestrais.
Retornando. Vemos, portanto, que a realidade que nós humanos  vivemos a todo instante, nada mais é do que uma complexa operação de classificação, organização, interpretação e armazenamento de sinapses cerebrais criadas pelos órgãos sensoriais. Apenas pulsos elétricos que divagando entre uma complexa rede neural que opera simplesmente alternando a concentração de Potássio ou Sódio em seu meio protoplasmático, se convergem em um centro nervoso onde lá, utilizando-se de todas as outras “experiências” já armazenadas, ele “calcula”, por modelos matemáticos lógicos e de forças dualísticas(opositoras), o que é mais útil ou inútil, bom ou mau, positivo ou negativo a si mesmo.
E todo esse modus operandi, cuja consciência trabalha ao longo da vida, irá necessitar de requisitos de operação, onde estes, obrigatoriamente têm que obedecer aos preceitos e condições lógicas da percepção, ou seja, uma espécie de ordem lógica que permita a consciência atingir a luz da conclusão e por fim chegar a ação voluntária positiva ou conveniente.