Aldous Huxley, em sua obra “Portas
da Percepção”, que na verdade é um relato de suas auto-observações quando
esteve, ele mesmo, sob efeito de mescalina, discorre de forma interessante com
relação a percepção. Ele diz que nosso cérebro, em seu estado normal, funciona
como um filtro que tende a selecionar como perceptível somente aquilo que lhe é
essencial e necessário a vida, enquanto que aquilo que é supérfluo é desprezado
ou despercebido. Ele afirma que se nosso cérebro pudesse perceber todos os
fenômenos que ocorrem ao seu redor o ser humano enlouqueceria com a quantidade
de informação e eventos que teria que lidar.
Certa vez, há mais de quinze anos,
em um livro budista li sobre uma experiência onde deram a um homem um óculos
cuja as lentes distorciam toda a visão de forma assimétrica( quero dizer,
diferente da forma que uma lente corretiva distorce a visão quando o míope ou
hipermétrope os põe pela primeira vez, que possuem distorções, côncavas ou
convexas, porém simétricas), dando formas bem distorcidas dos contornos e
vultos que se transpareciam pela lente, e este homem teria que usar este óculos
indefinidamente sem o tirar. Ocorre que nos 3 primeiros dias o homem não
conseguia definir um objeto a um metro de distância, sentia enjôos e tonturas,
mas conforme os dias se passavam o homem começou a adaptar-se as lentes e seu
cérebro corrigiu todas as distorções fazendo-o enxergar as coisas como eram de
fato. Porém o que devemos concluir com isso?
Se trata de uma adaptação do cérebro. Mas quais os parâmetros que o
cérebro utilizou para corrigir essa visão distorcida? Será que o conhecimento
prévio das coisas como eram, ou seja, como que uma reta, ou uma curva, ou um
canto, ou uma profundidade, e de como se manifestam na retina dos olhos, ou o
cérebro com algum tipo de percepção extra-sensorial consegue estimar o que há
além do sentido da visão para corrigi-la? Sem dúvida o mais sensato seria
aceitarmos a primeira proposição, o que nos remete a uma afirmação inexorável:
a de que de uma forma ou de outra o ser humano enxerga aquilo que ele quer ver.
A percepção, de toda e qualquer
natureza, seja pela visão, audição, paladar, olfato e tato, são os sensores
humanos que delineiam a realidade com a qual o raciocínio irá trabalhar. São
estas faculdades que definem ao humano os limites de seu universo de existência
e como reproduzi-los em sua mente. Enquanto uma cor se manifesta na mente pelo
sentido da visão, a temperatura se manifesta pelo sentido do tato, porém em
aspectos físicos, ambos se manifestam no espaço por ondas. Todas estas
capacidades sensoriais humanas trabalham em conjunto com o raciocínio, como
delimitadores do pensamento e da conclusão.
Toda essa complexa rede de órgãos
sensoriais que compõem a percepção
estão tão intrinsecamente ligados a noção cognitiva de realidade como que a
forma do objeto está para a geometria. Imagine tentar descrever a um cego de
nascença o que viria a ser a cor verde. Embora poderíamos descrever algumas
características da cor, como a forma de sua onda, como uma analogia para o
entendimento, jamais poderíamos descrever de fato o que é realmente enxergar a
cor verde.
De forma mais simplista ainda, porém
não menos verdadeira, eu diria que os sentidos da percepção são para o
raciocínio o que as cartas de baralho são para um jogador: apenas um conjunto
de números que o jogador dispõe em mãos, e que de acordo com as regras do jogo
ele as deve usar como melhor lhe aprouver.
E o que são os sentidos senão órgãos que trazem à consciência ordens
qualitativas e quantitativas de estímulos nervosos causados por fenômenos
externos, que agrupados e relacionados em conjunto, compõem uma espécie de
simulacro que permite prever um evento externo, para que de acordo com o que
nos for mais útil, poder decidir que ações tomar na realidade ?
Oras! Poderíamos avançar mais
adiante ainda. Pergunto ao leitor qual lembrança que há em sua memória, ou
pensamento que se tenha formado, cuja origem não tenha sido submetida pelo
crivo dos sentidos? Não seria exagero algum afirmar que todas as lembranças de
um humano adulto nada mais são que tudo aquilo que ele viu, ouviu, cheirou,
experimentou e tocou? E que mesmo a emoção está diretamente relacionada com
estes sentidos? E conseqüentemente, o que formou o caráter desses homens nada
mais foram do que a compreensão, a reflexão, a comparação, a justaposição de
todas essas lembranças. Rene de
Descartes foi sábio ao afirmar que todos os homens pensam da mesma forma, o que
os difere fundamentalmente entre si é a forma que cada um enxergou o mundo. E
claro que o termo enxergar, no caso, se estende mera visão.
Devido as limitações as quais a
percepção humana está condicionada, sua inclinação é de ordem reativa, e se conduz somente pelo caráter empírico. É
sentido por ninguém mais além do agente perceptor. Quando a percepção de um
perigo é iminente, o instinto e os dispositivos de auto-preservação entram em
ação, como quando mordemos algo muito duro e a dor em nossos dentes faz a
mandíbula abrir imediatamente. Porém quando os estímulos de uma determinada
percepção são suportáveis, e assim observáveis, utilizamo-nos das informações
dadas pelos nossos órgãos sensoriais para voluntariamente tomarmos a ação que
melhor convém.
Ora. Nada mais lógico afirmar que
quanto menos raciocínio um ser vivo usa, e conseqüentemente depende dele, mais
apurados(e precisos) serão seus órgãos sensoriais. Com base em essa simples
ciência da relação de percepção e raciocínio, concluímos que complexidade de um
órgão sensorial passa a ser um fator atenuante ou agravante da classificação de
comportamento instintivo. Certamente que quanto mais intenso um estímulo se
manifestar nos meios cognitivos de um ser, mais prazerosos ou insuportáveis
serão esses estímulos para este ser, e assim seu centro nervoso, com uma
aguçada percepção e distinção entre o que parece ser bom e o que parece ser
ruim, não irá ter dificuldades para decidir quais ações ou atitudes adotar em
determinada circunstância.
A maioria dos animais selvagens vertebrados se utilizam de um olfato extremamente aguçado para os
auxiliarem a rastrearem uma caça, a
detectarem uma ameaça, ou inspecionarem um alimento que irão comer ou a água
que irão beber. Dotados de poderosos instrumentos sensoriais que permitem
detectar partículas de até partes entre milhões, quem iria precisar do
conhecimento ou do raciocínio para tomar uma ação se tem em aos o melhor dos
medidores ? Enquanto nós ao olharmos um pedaço qualquer de comida na natureza
teríamos que usar de preposições do conhecimento, como determinar a quanto
tempo que esta comida está lá, se
esteve exposta a calor ou frio, se está com uma cor boa ou não; para o animal
de olfato aguçado bastaria uma simples farejada para poder determinar o estado
do alimento e o cheiro da podridão em seu estado inicial já seria o suficiente
para tornar o gosto do alimento impróprio, pois a intensidade desses estímulos
e a percepção do centro nervoso(de prazeroso ou desagradável) seriam
diretamente proporcionais a quantidade de células sensoriais do sentido.
Não nos enganemos. Novamente sou
enfático: a Natureza não ostenta. Ela não irá nos dar recursos sensoriais
aguçados, que por sua vez consomem energia que o organismo em seu todo terá que
suprir, para ter que depois colocar um centro nervoso de alta complexidade para
apenas afirmar o que o órgão sensorial já constatou.
Assim sendo, nos humanos a natureza moderou a maioria de nossos
órgãos sensoriais, deixando, ao que parece, apenas a visão como sendo o órgão
sensorial mais complexo, principalmente quando comparada a grande maioria de
outras espécies de animais. Não é de se estranhar que é justamente pela visão
que o indivíduo é mais persuasivamente iludido.
Nota-se que o raciocínio, tanto humano quanto animal (mesmo que
de natureza primária) é matemático. Ou seja, funciona como o princípio
fundamental de uma operação básica ou mesmo uma equação: ele precisa de
variáveis para poder operar, ou seja, as percepções dadas pelos respectivos
órgãos sensoriais constituem a informação de entrada, ou as variáveis. Esse é o
método inteligente do raciocínio, utiliza-se de informações de entrada. No
entanto, como em uma equação de resultado 0, o raciocínio sempre trabalha de
acordo com o que ele considera positivo e negativo, interessante ou
desprezível. E com o objetivo de economizar recursos energéticos do organismo
em um eventual re-processamento de informação ou com a re-experiência do
evento, que pode ser oneroso ao organismo em termos energéticos ou mesmo de
risco iminente à integridade física, o centro nervoso tem a capacidade de
armazenar toda a informação de uma experiência com a finalidade de ser usada no
futuro.
A capacidade de previsão humana advém justamente dessa
capacidade de armazenarmos experiências, ou seja: memória. A memória, seja ela
empírica ou didática(em todos os aspectos), com suas conclusões positivas ou
negativas já formadas irão servir ao indivíduo como novas informações de
entrada para outros novos raciocínios que ocorrem em seu cotidiano que auxiliam
em sua ação voluntária. Como conseqüência à medida que mais velhos ficamos,
mais experiências temos e mais sábios nos tornamos, ao menos com relação a
essas experiências. E o aprendizado não empírico que embora também permita ao
homem tomar uma decisão voluntária positiva ou negativa só é aceito e utilizado
como premissa ou hipótese verdadeira quando ele é coerente com os limites de
realidade determinada pelos sentidos, ou pela subjetividade, que veremos mais
adiante.
Submetido obrigatoriamente a esta forma de raciocínio, o ser
vivo se vê preso ao modelo de realidade estipulado pelos seus sentidos, e por
isso nós humanos, por exemplo, ao teorizarmos eventos ou fenômenos que não
podemos perceber, como o modelo de um átomo, ou uma força eletromagnética, o
indivíduo pensante acaba inevitavelmente determinando, como algo passível de
verdadeiro, apenas aquilo que seus sentidos aceitam como verdadeiro, e assim
para entender o universo que o cerca, ele precisa estabelecer grandezas para
mensurar esses mesmos atributos que ele necessita ter como verdadeiros em um
objetivo classificado real. E assim a ciência só consegue explicar, e portanto
aceitar, uma teoria quando ela possui grandezas mensuráveis que integram a
realidade da percepção humana, como tempo, tamanho, peso, comprimento, estado
material, categoria química, e principalmente, a convenção de forças
opositoras.
A explanação da ciência sobre o fundamento de forças opositoras
se tornou a pedra angular dos teóricos modernos. Ação e Reação, Conservação de
Forças, solidez e espaço são nada mais que convenções que só são aceitas pela
ciência porque são exatamente sob o véu dessas mesmas leis que nossos sentidos
estão submetidos a operarem. Toda a ciência matemática, física ou química não
explica a realidade tal como é, e sim nada mais faz, do que explicar a
realidade tal como nosso cérebro a percebe. E quando nos colocamos a uma
observação mais imparcial e livre destes “dogmas”, em universos quânticos e
elementares por exemplo, vemos que nenhum dos 3 fundamentos Newtonianos se
firmam. Vemos que a matéria em sua menor dimensão infinitesimal parece nem
mesmo se manifestar como algo sólido, ou mesmo que exista. Ação e Reação,
Gravitação, Espaço e Matéria, todos esses fundamentos que supostamente explicam
nosso universo caem por terra ao tentarmos explicar este novo universo.
Comentários à parte: não mais surpreendente que isto, está o
homem moderno, que se regozija a todo instante de sua inocente arrogância
quando se atreve afirmar que a realidade que ele demonstra matematicamente hoje
é a verdadeira realidade. Estamos apenas cometendo o mesmo erro de nossos
ancestrais.
Retornando. Vemos, portanto, que a realidade que nós
humanos vivemos a todo instante, nada
mais é do que uma complexa operação de classificação, organização,
interpretação e armazenamento de sinapses cerebrais criadas pelos órgãos
sensoriais. Apenas pulsos elétricos que divagando entre uma complexa rede
neural que opera simplesmente alternando a concentração de Potássio ou Sódio em
seu meio protoplasmático, se convergem em um centro nervoso onde lá,
utilizando-se de todas as outras “experiências” já armazenadas, ele “calcula”,
por modelos matemáticos lógicos e de forças dualísticas(opositoras), o que é
mais útil ou inútil, bom ou mau, positivo ou negativo a si mesmo.
E todo esse modus operandi, cuja consciência trabalha ao
longo da vida, irá necessitar de requisitos de operação, onde estes,
obrigatoriamente têm que obedecer aos preceitos e condições lógicas da
percepção, ou seja, uma espécie de ordem lógica que permita a consciência
atingir a luz da conclusão e por fim chegar a ação voluntária positiva ou
conveniente.