Como declarado
anteriormente, nos parece que natureza provém ao ser aquilo que é necessário à
sua sobrevivência. E não seria diferente com o ser humano.
Não quero discorrer sobre a forma de
pensamento. Não precisamos dissecá-lo para entender se sua origem é metafísica
ou material, se é finalista ou mecanicista, se é temporal ou atemporal. Ao que
nos convém no presente momento, basta apenas sabermos no que isso nos interfere
e influencia.
A natureza não desperdiça seus
recursos com o ostentoso. Tudo que ela provê a um organismo tem uma função que
lhe é útil a vida, seja direta ou indiretamente. Conseqüentemente, não
precisamos divagar muito para concluir que mesmo nossa capacidade mais
extraordinária, que alguns animais como macacos, elefantes, baleias, ou
golfinhos (animais estes que interagem e manipulam seu meio ambiente para
conseguir benefícios) também possuem, que é a de prever uma determinada
situação complexa de acordo com nossas ações, só existe para que possamos
manter nossa integridade física e nosso bem estar.
O ser humano foi mais além. Em
comparação com outros animais vertebrados, ele desenvolveu seu cérebro a
patamares fora do comum permitindo-o estar entre as espécies mais bem sucedidas
da natureza até o momento.
Assim
outrora, Henri Bérgson escreve: “Mas,contra essa idéia de originalidade e da
imprevisibilidade absolutas das formas, toda nossa inteligência se insurge.
Nossa inteligência, tal como a evolução da vida a modelou, tem por função
essencial iluminar nossa conduta, preparar nossa ação sobre as coisas, prever,
com relação a uma situação dada, os acontecimentos favoráveis que podem se
seguir. Instintivamente, portanto, isola em uma situação aquilo que se
assemelha ao já conhecido; procura o mesmo, a fim de poder aplicar seu princípio
segundo o qual "o mesmo produz o mesmo." ” .
Nossa capacidade de observar, medir,
classificar, simular e prever nos permitiu ter, gradualmente, o poder de
“controlar” a natureza. E quando me refiro a “controlar”, quero apenas dizer
que o homem pode ter pego a direção do “veículo”, mas certamente o caminho que
ele está conduzindo este veículo é incerto e duvidoso.
Porém, não será surpresa a ninguém
se ao observar que todas essas observações, todas essas medições, todas as
classificações, todas as simulações e
previsões, perceber que tudo não possui outra finalidade senão a manutenção da
própria vida. Mesmo se uma empresa que vende um produto, ela só vende porque o
empresário busca lucro, cujo o mesmo é o meio para a manutenção de seu próprio
bem-estar, e conseqüentemente, auto-preservação. O cliente só compra um produto
porque aquele atende a alguma finalidade ou diretamente relacionada com sua
auto-preservação ou relacionada com seu bem estar, que direta ou indiretamente,
leva a sua auto-preservação.
Não há como escapar da natureza
egoísta de um ser vivo. É um sentimento, ou diria atitude, latente contida nele
mesmo, sendo ele uno em sua compreensão de existência em seu próprio universo,
é mais do que natural de que tudo deva girar em torno dele. Portanto, toda a
ação viva, direta ou indiretamente, está voltada para sua auto-preservação ou
para seu próprio bem estar.
Segundo Sócrates, o ser humano
costuma definir o bom ao que é útil a si mesmo e conseqüentemente o beneficia
de alguma forma, e o mau ou ruim o que é inútil, e por sua vez o prejudica de
alguma forma. E a utilidade de algo, seja ele concreto ou abstrato, muitas
vezes não trás a verdade ou o conhecimento de sua utilidade em si mesmo, e
portanto eles precisam serem aprendidos ou informados. Daí que podemos afirmar
que nenhum ser humano sente vontade
daquilo que não conhece, pois na
prática desconhece sua utilidade.
Como ser racional que precisa de
conhecimento, ou seja precisa de medidas, grandezas e parâmetros para poder
concluir o que lhe é útil e inútil, e poder decidir aquilo que melhor lhe
convém, não há nada mais desconfortante
ao ser humano do que a dúvida. Pior do que ter a ciência de que algo é mau ou
do inútil, é não ter a ciência sobre utilidade e inutilidade sobre esse algo. E
nisso consistia a força da retórica grega, que Sócrates chamava de adulação:
que era promover ao ouvinte a certeza sobre um assunto utilizando-se de uma
série de argumentos que se correlacionam entre si ou por sofismos ou aforismos, para promover a certeza, e conseqüentemente
o bem-estar do ouvinte. E obviamente que a dúvida precisa ser observada, ou
melhor, percebida. Portanto, o indivíduo só dará atenção necessária a algo
quando ele perceber que o efeito advindo do mesmo o influencia de alguma forma,
e só a partir deste momento ele irá se debruçar sobre o problema trazido por
esta nova observação. Ocorre que, quando a observação e o conhecimento que um “algo” ou uma ação carregam de verdades em si atingem o limite
do observado e do esclarecido, surgem outras dúvidas, e a primeira e mais óbvia
de todas será o por que de algo carregar esta verdade em si ? Ou seja: todo o
conhecimento e esclarecimento de um determinado problema, levará o indivíduo a
uma nova dúvida, cuja esta, quando for também esclarecida, levará novamente o
indivíduo a uma nova dúvida, e isso irá tender ao infinito até o conhecimento
pleno do universo, portanto, jamais.
Como visto, o útil e o inútil, tanto
de uma ação como a de um objeto não trazem essas verdades em si e sim em suas
finalidades. A água salgada não é útil a mim, mas é útil ao ser marinho. A
guerra é útil a uma nação, mas é inútil a vida. O pasto é útil à gazela mas não
é útil ao leão, e a gazela é útil ao leão mas não é útil a zebra. Ser generoso
com um indivíduo necessitado é útil e ser generoso com um indivíduo abastardo e
mimado não é útil.
Enfim,
ao passo que se analisarmos que toda a ação ou objeto possui uma finalidade
diretamente relacionada com a utilidade e inutilidade, e como infelizmente
tendamos a observar os fenômenos por suas conseqüências, ou seja depois que
eles ocorrem, o conhecimento da finalidade remete sempre a causa, que por sua
vez é a finalidade de uma outra causa e assim infinitamente.
Portanto,
como observa Sócrates, o verdadeiro discurso didático voltado para o argumento
lógico irá trazer ao espectador sempre
uma nova dúvida.
Certamente que o homem se satisfaz
quando a utilidade de algo está na medida do que lhe convém e não é preciso
investigar mais adiante. Mas é inevitável que em determinado momento de sua
história, que normalmente seria quando o conhecimento da uma utilidade presente
não atende mais as circunstâncias do ser humano, ele irá buscar novos
conhecimentos dessas causas. Seja para aprimorar um meio já existente, seja para produzir um novo.
Sobretudo
o raciocínio só nos é útil quando nos conduz a uma certeza e jamais a uma
dúvida. Nota-se aí a facilidade da ciência, já que esta atua sobre um universo
material que pode ser facilmente dividido, classificado, mensurado e sobretudo
experimentado, o simples universo das causas e conseqüências dos fenômenos da
física natural, que é tão certa e real quanto a própria matéria, embora também
conduza a enganos. Mas que já não podemos dizer o mesmo com relação a tudo que
é metafísico ou produto da vida. Uma coisa é explicar os fenômenos químicos e
biológicos que conduzem o mecanismo da vida no ser, que na realidade são
ciências baseadas nos conhecimentos físicos
reais e materiais mencionados a pouco. Outra coisa é estudar a
finalidade deste ser em seu contexto universal, algo quase impossível. No
entanto, nossa ciência só é capaz de reter das coisas apenas o aspecto da
repetição, pois só é válido para ciência como verdade, aquilo que pode ser
demonstrado, ou seja, repetido, seja empiricamente, ou matematicamente.
O
raciocínio, seja ele de finalidade científica, ou seja que atua sobre a
matéria, seja ele de ordem social ou filosófica, sempre se dá na nossa mente de
forma fragmentada, e sempre condicionada a grandezas e fenômenos perceptíveis a
nossa realidade sensorial e cognitiva, que é baseada no sólido, material, e no
causal.
O
raciocínio sempre se baseará em uma causa, e chegará obrigatoriamente a uma
conseqüência. Não há raciocínio que parta do simples nada para se chegar a uma
conclusão de uma finalidade, ou o próprio termo seria contraditório. Oras, e o que é o raciocínio senão nada mais
do que a busca pelo “por que” ? Contudo, o simples porque já implica na
obrigatoriedade de um agente causador.
Os
cosmologistas atuais afirmam que para se entender o big-bang é necessário ter
em mente que antes dele havia o mais absoluto nada. São enfáticos ao afirmar
que a necessidade da aceitação do nada é essencial para a compreensão da
nascimento do Universo. Curiosamente, são os mesmos cientistas que dizem aos
religiosos que Deus não criou o Universo porque no universo nada foi criado a
partir do nada, mas são obrigados a aceitar que existiu o nada para que o
universo pudesse ter sido gerado por sua própria teoria. Mas isso é tema para
outro tópico ou documento.
Porém
é conveniente enfatizar o quanto a idéia do nada é confusa ao ser humano. Como
já afirmava Emmanuel Kant, a idéia de nada não pode ser concebida pelo
raciocínio humano por si só, pois o nada, nada mais é do que o inexistente. Em
nossa mente, quando exprimimos a idéia de nada ou inexistente, na verdade
estamos atribuindo um adjetivo a um substantivo, pensamos primeiro no objeto e
depois atribuímos sua inexistência. E ao tentar idealizar o verdadeiro
inexistente ou o nada absoluto, veremos isto como sendo impossível, e que
precisaremos sempre de uma referência a quem atribuir este nada. Oras! Podemos
adentrar em uma sala vazia e dizer que não há nada lá. No entanto ao dizer que
não há nada nesta sala, estamos nos referindo ao simples nada com relação a o
que nos é útil na circunstância. Porque certamente se existe uma sala é porque
existem paredes, uma batente de entrada, uma porta, um teto, um piso, enfim, se
nos atermos até os detalhes mínimos, veremos que na realidade as quantidades de
elementos e eventos ocorrendo nesta minúscula sala também se estendem ao
infinito.
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