quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do Raciocínio Pensante


Como declarado anteriormente, nos parece que natureza provém ao ser aquilo que é necessário à sua sobrevivência. E não seria diferente com o ser humano.
            Não quero discorrer sobre a forma de pensamento. Não precisamos dissecá-lo para entender se sua origem é metafísica ou material, se é finalista ou mecanicista, se é temporal ou atemporal. Ao que nos convém no presente momento, basta apenas sabermos no que isso nos interfere e influencia.
            A natureza não desperdiça seus recursos com o ostentoso. Tudo que ela provê a um organismo tem uma função que lhe é útil a vida, seja direta ou indiretamente. Conseqüentemente, não precisamos divagar muito para concluir que mesmo nossa capacidade mais extraordinária, que alguns animais como macacos, elefantes, baleias, ou golfinhos (animais estes que interagem e manipulam seu meio ambiente para conseguir benefícios) também possuem, que é a de prever uma determinada situação complexa de acordo com nossas ações, só existe para que possamos manter nossa integridade física e nosso bem estar.
            O ser humano foi mais além. Em comparação com outros animais vertebrados, ele desenvolveu seu cérebro a patamares fora do comum permitindo-o estar entre as espécies mais bem sucedidas da natureza até o momento.
Assim outrora, Henri Bérgson escreve: “Mas,contra essa idéia de originalidade e da imprevisibilidade absolutas das formas, toda nossa inteligência se insurge. Nossa inteligência, tal como a evolução da vida a modelou, tem por função essencial iluminar nossa conduta, preparar nossa ação sobre as coisas, prever, com relação a uma situação dada, os acontecimentos favoráveis que podem se seguir. Instintivamente, portanto, isola em uma situação aquilo que se assemelha ao já conhecido; procura o mesmo, a fim de poder aplicar seu princípio segundo o qual "o mesmo produz o mesmo." ” .
            Nossa capacidade de observar, medir, classificar, simular e prever nos permitiu ter, gradualmente, o poder de “controlar” a natureza. E quando me refiro a “controlar”, quero apenas dizer que o homem pode ter pego a direção do “veículo”, mas certamente o caminho que ele está conduzindo este veículo é incerto e duvidoso.
            Porém, não será surpresa a ninguém se ao observar que todas essas observações, todas essas medições, todas as classificações, todas as  simulações e previsões, perceber que tudo não possui outra finalidade senão a manutenção da própria vida. Mesmo se uma empresa que vende um produto, ela só vende porque o empresário busca lucro, cujo o mesmo é o meio para a manutenção de seu próprio bem-estar, e conseqüentemente, auto-preservação. O cliente só compra um produto porque aquele atende a alguma finalidade ou diretamente relacionada com sua auto-preservação ou relacionada com seu bem estar, que direta ou indiretamente, leva a sua auto-preservação.
            Não há como escapar da natureza egoísta de um ser vivo. É um sentimento, ou diria atitude, latente contida nele mesmo, sendo ele uno em sua compreensão de existência em seu próprio universo, é mais do que natural de que tudo deva girar em torno dele. Portanto, toda a ação viva, direta ou indiretamente, está voltada para sua auto-preservação ou para seu próprio bem estar.
            Segundo Sócrates, o ser humano costuma definir o bom ao que é útil a si mesmo e conseqüentemente o beneficia de alguma forma, e o mau ou ruim o que é inútil, e por sua vez o prejudica de alguma forma. E a utilidade de algo, seja ele concreto ou abstrato, muitas vezes não trás a verdade ou o conhecimento de sua utilidade em si mesmo, e portanto eles precisam serem aprendidos ou informados. Daí que podemos afirmar que  nenhum ser humano sente vontade daquilo que não conhece, pois  na prática desconhece sua utilidade.
            Como ser racional que precisa de conhecimento, ou seja precisa de medidas, grandezas e parâmetros para poder concluir o que lhe é útil e inútil, e poder decidir aquilo que melhor lhe convém,  não há nada mais desconfortante ao ser humano do que a dúvida. Pior do que ter a ciência de que algo é mau ou do inútil, é não ter a ciência sobre utilidade e inutilidade sobre esse algo. E nisso consistia a força da retórica grega, que Sócrates chamava de adulação: que era promover ao ouvinte a certeza sobre um assunto utilizando-se de uma série de argumentos que se correlacionam entre si ou por sofismos ou aforismos,  para promover a certeza, e conseqüentemente o bem-estar do ouvinte. E obviamente que a dúvida precisa ser observada, ou melhor, percebida. Portanto, o indivíduo só dará atenção necessária a algo quando ele perceber que o efeito advindo do mesmo o influencia de alguma forma, e só a partir deste momento ele irá se debruçar sobre o problema trazido por esta nova observação. Ocorre que, quando a observação e o conhecimento que  um “algo” ou uma ação  carregam de verdades em si atingem o limite do observado e do esclarecido, surgem outras dúvidas, e a primeira e mais óbvia de todas será o por que de algo carregar esta verdade em si ? Ou seja: todo o conhecimento e esclarecimento de um determinado problema, levará o indivíduo a uma nova dúvida, cuja esta, quando for também esclarecida, levará novamente o indivíduo a uma nova dúvida, e isso irá tender ao infinito até o conhecimento pleno do universo, portanto, jamais.
            Como visto, o útil e o inútil, tanto de uma ação como a de um objeto não trazem essas verdades em si e sim em suas finalidades. A água salgada não é útil a mim, mas é útil ao ser marinho. A guerra é útil a uma nação, mas é inútil a vida. O pasto é útil à gazela mas não é útil ao leão, e a gazela é útil ao leão mas não é útil a zebra. Ser generoso com um indivíduo necessitado é útil e ser generoso com um indivíduo abastardo e mimado não é útil.
Enfim, ao passo que se analisarmos que toda a ação ou objeto possui uma finalidade diretamente relacionada com a utilidade e inutilidade, e como infelizmente tendamos a observar os fenômenos por suas conseqüências, ou seja depois que eles ocorrem, o conhecimento da finalidade remete sempre a causa, que por sua vez é a finalidade de uma outra causa e assim infinitamente.
Portanto, como observa Sócrates, o verdadeiro discurso didático voltado para o argumento lógico irá trazer ao espectador  sempre uma nova dúvida.
            Certamente que o homem se satisfaz quando a utilidade de algo está na medida do que lhe convém e não é preciso investigar mais adiante. Mas é inevitável que em determinado momento de sua história, que normalmente seria quando o conhecimento da uma utilidade presente não atende mais as circunstâncias do ser humano, ele irá buscar novos conhecimentos dessas causas. Seja para aprimorar um meio já existente,  seja para produzir um novo.
Sobretudo o raciocínio só nos é útil quando nos conduz a uma certeza e jamais a uma dúvida. Nota-se aí a facilidade da ciência, já que esta atua sobre um universo material que pode ser facilmente dividido, classificado, mensurado e sobretudo experimentado, o simples universo das causas e conseqüências dos fenômenos da física natural, que é tão certa e real quanto a própria matéria, embora também conduza a enganos. Mas que já não podemos dizer o mesmo com relação a tudo que é metafísico ou produto da vida. Uma coisa é explicar os fenômenos químicos e biológicos que conduzem o mecanismo da vida no ser, que na realidade são ciências baseadas nos conhecimentos físicos  reais e materiais mencionados a pouco. Outra coisa é estudar a finalidade deste ser em seu contexto universal, algo quase impossível. No entanto, nossa ciência só é capaz de reter das coisas apenas o aspecto da repetição, pois só é válido para ciência como verdade, aquilo que pode ser demonstrado, ou seja, repetido, seja empiricamente, ou matematicamente.
O raciocínio, seja ele de finalidade científica, ou seja que atua sobre a matéria, seja ele de ordem social ou filosófica, sempre se dá na nossa mente de forma fragmentada, e sempre condicionada a grandezas e fenômenos perceptíveis a nossa realidade sensorial e cognitiva, que é baseada no sólido, material, e no causal.
O raciocínio sempre se baseará em uma causa, e chegará obrigatoriamente a uma conseqüência. Não há raciocínio que parta do simples nada para se chegar a uma conclusão de uma finalidade, ou o próprio termo seria contraditório.  Oras, e o que é o raciocínio senão nada mais do que a busca pelo “por que” ? Contudo, o simples porque já implica na obrigatoriedade de um agente causador.
Os cosmologistas atuais afirmam que para se entender o big-bang é necessário ter em mente que antes dele havia o mais absoluto nada. São enfáticos ao afirmar que a necessidade da aceitação do nada é essencial para a compreensão da nascimento do Universo. Curiosamente, são os mesmos cientistas que dizem aos religiosos que Deus não criou o Universo porque no universo nada foi criado a partir do nada, mas são obrigados a aceitar que existiu o nada para que o universo pudesse ter sido gerado por sua própria teoria. Mas isso é tema para outro tópico ou documento.
Porém é conveniente enfatizar o quanto a idéia do nada é confusa ao ser humano. Como já afirmava Emmanuel Kant, a idéia de nada não pode ser concebida pelo raciocínio humano por si só, pois o nada, nada mais é do que o inexistente. Em nossa mente, quando exprimimos a idéia de nada ou inexistente, na verdade estamos atribuindo um adjetivo a um substantivo, pensamos primeiro no objeto e depois atribuímos sua inexistência. E ao tentar idealizar o verdadeiro inexistente ou o nada absoluto, veremos isto como sendo impossível, e que precisaremos sempre de uma referência a quem atribuir este nada. Oras! Podemos adentrar em uma sala vazia e dizer que não há nada lá. No entanto ao dizer que não há nada nesta sala, estamos nos referindo ao simples nada com relação a o que nos é útil na circunstância. Porque certamente se existe uma sala é porque existem paredes, uma batente de entrada, uma porta, um teto, um piso, enfim, se nos atermos até os detalhes mínimos, veremos que na realidade as quantidades de elementos e eventos ocorrendo nesta minúscula sala também se estendem ao infinito.

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